A sanção da lei que proíbe trotes violentos e abusivos em instituições de ensino superior de Rondônia representa um importante avanço na proteção da dignidade humana no ambiente universitário. Embora tradicionais, os rituais de recepção aos calouros frequentemente ultrapassam os limites do respeito e da civilidade, transformando o que deveria ser um momento de integração em experiências traumáticas e degradantes.
A nova legislação estadual demonstra sensibilidade a uma realidade preocupante. Sob o pretexto da "tradição", ações humilhantes, coercitivas e até violentas têm sido normalizadas, comprometendo não apenas a saúde física e psicológica dos estudantes recém-chegados, mas também a própria essência do ambiente acadêmico, que deveria ser pautado pelo respeito, inclusão e desenvolvimento humano.
É preciso reconhecer, contudo, que a integração entre veteranos e calouros possui valor pedagógico e social, quando realizada de forma respeitosa. Atividades culturais, esportivas e solidárias podem promover genuína aproximação entre os estudantes sem recorrer a práticas vexatórias. O desafio está em distinguir entre a saudável socialização e os abusos que transformam momentos de celebração em situações traumáticas.
A responsabilização das instituições de ensino é outro ponto fundamental da nova lei. Ao atribuir às universidades e faculdades o dever de prevenir, investigar e punir excessos, o legislador reconhece que a cultura do trote violento só persiste onde há omissão institucional. Cabe às entidades educacionais garantir que a recepção dos novos alunos ocorra em ambiente seguro e respeitoso.
Merece destaque a abrangência da lei, que alcança também os trotes realizados fora do campus. Esta disposição evita a transferência das práticas abusivas para ambientes menos fiscalizados e demonstra compreensão da dinâmica atual dos trotes, muitas vezes organizados em chácaras, repúblicas e outros espaços externos.
Entretanto, é importante que a aplicação da nova legislação não se transforme em mera burocracia punitiva. O combate efetivo aos trotes abusivos requer mudança cultural profunda, com ações educativas continuadas que promovam reflexão sobre dignidade, empatia e respeito. A prevenção, através da conscientização, deve ocupar posição central nas estratégias institucionais.
Vale ressaltar que a lei estadual se alinha a uma tendência nacional de revisão crítica dessas práticas. Diversas instituições já adotaram protocolos de recepção humanizada, substituindo as antigas "brincadeiras" por atividades construtivas que verdadeiramente promovem integração.
A construção de um ambiente acadêmico saudável, inclusivo e respeitoso não é apenas questão disciplinar, mas requisito fundamental para a formação de profissionais comprometidos com valores éticos. A universidade que tolera a violência em seus rituais falha em sua missão educativa essencial.
Diário da Amazônia