Porto Velho (RO)05 de Março de 202610:56:57
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A força do voluntariado em tempos de tragédia

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Na zona da mata mineira, neste momento, a palavra "tragédia" não é abstração: é rio que transborda, é encosta que desliza, é casa tomada pela lama. Famílias deixam tudo para trás em minutos, carregando em sacolas o que sobrou de uma vida inteira. Em meio a esse cenário, um outro movimento ganha corpo e significado: o trabalho voluntário.

Quando a chuva aperta e o poder público demora, é o gesto voluntário que costuma chegar primeiro. É o vizinho com carro alto que ajuda a retirada dos idosos, o jovem que passa a madrugada enchendo sacos de areia, a dona de casa que transforma doações em marmitas quentes, o salão paroquial que vira abrigo improvisado. Essa mobilização espontânea salva vidas, reduz danos e diminui a distância entre quem precisa e o socorro possível.

O voluntariado tem, nessas horas, uma função prática evidente: estar onde o Estado não alcança com a mesma rapidez. Bombeiros, Defesa Civil e equipes oficiais são fundamentais, mas não estão em todos os becos, morros e estradas vicinais. Voluntários conhecem atalhos, sabem quem mora sozinho, quem é acamado, quem perdeu não só a casa, mas também os documentos, os remédios, a referência de futuro. Essa inteligência local é decisiva.

Mas o trabalho voluntário faz mais do que carregar móveis e distribuir cestas básicas. Ele reconstrói laços. As enchentes não arrastam apenas paredes; arrastam a sensação de segurança, a previsibilidade dos dias. Quando alguém se dispõe a ajudar sem receber nada em troca, a mensagem é clara: a dor não será enfrentada sozinha. No mutirão para limpar a lama, na fila organizada para receber alimentos, nas brincadeiras improvisadas com crianças nos abrigos, a comunidade reaprende a ser comunidade.

Há também um papel simbólico e político importante. A mobilização voluntária mostra a força da sociedade civil, mas expõe, ao mesmo tempo, nossas fragilidades estruturais: ocupação de áreas de risco, falta de planejamento urbano, ausência de prevenção. A cada enxurrada, repetimos o roteiro de sempre: solidariedade na emergência, esquecimento na estiagem. O voluntariado precisa ser reconhecido, mas não pode servir de desculpa para normalizar o que é, em parte, fruto de descaso e omissões antigas.

Por isso, falar de voluntariado em tragédias é também falar de organização. Boa vontade, sozinha, não basta. Doações sem critério entopem ginásios; roupas inadequadas ao clima e alimentos vencidos atrasam o que de fato é urgente. A presença desorientada em áreas de risco coloca mais gente em perigo. A solidariedade precisa ser canalizada por meio de grupos sérios, lideranças locais, entidades que saibam o que falta e onde falta. A pergunta "do que vocês realmente precisam?" é, muitas vezes, o gesto mais responsável.

Há uma lição para além da enchente de hoje: o voluntariado não deve existir apenas na tragédia. Treinamentos comunitários, campanhas de prevenção, cadastros de voluntários, exercícios de simulação de desastres podem fazer toda a diferença quando a sirene tocar de novo. O impulso de ajudar, que agora se manifesta com tanta força na zona da mata mineira, pode ser a base de uma cultura permanente de cuidado.

No fim, o que fica de experiências assim não é só o registro da destruição, mas também o das mãos estendidas. Cada prato de comida servido, cada colchão carregado, cada remédio encontrado, cada história escutada no abrigo é um pequeno ato de resistência contra a indiferença. Em um país acostumado a conviver com enchentes, deslizamentos e desastres anunciados, o trabalho voluntário é o lembrete insistente de que a vida do outro nos diz respeito.

Enquanto a lama ocupa ruas e memórias, são os voluntários que, silenciosamente, ajudam a manter de pé aquilo que nenhuma enxurrada pode levar: a possibilidade de continuar acreditando uns nos outros. E, em tempos tão duros, isso não é pouco. É o começo da reconstrução.

Roberto Ravagnani

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