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A participação das mulheres na construção do patrimônio familiar nem sempre se traduz em poder de decisão sobre os recursos acumulados. Um levantamento realizado pela Mardô Family House Integration, casa especializada em governança patrimonial e continuidade de negócios familiares, aponta que 87% das mulheres que ocupam a posição de esposas ou herdeiras em famílias brasileiras de altíssimo patrimônio não participam ativamente das decisões estratégicas sobre os ativos.
O estudo analisou 80 famílias empresárias brasileiras, que reúnem mais de R$ 200 bilhões em patrimônio, com uma média de R$ 2,5 bilhões por grupo familiar. Segundo o diagnóstico, embora tenham acesso aos benefícios financeiros dos bens, como o recebimento de dividendos, essas mulheres permanecem afastadas das estruturas responsáveis pela administração, pelos investimentos, pela proteção dos recursos e pelo planejamento sucessório.
O distanciamento também pode trazer consequências financeiras. De acordo com a pesquisa, mais de 53% das mulheres ouvidas já vivenciaram situações em que tiveram o patrimônio prejudicado ou nas quais terceiros se beneficiaram da falta de participação delas nas decisões.
O levantamento aponta que o problema não está necessariamente relacionado à falta de capacidade técnica para administrar os recursos, mas a fatores culturais, históricos e comportamentais que contribuem para a exclusão feminina da gestão patrimonial.
Entre os comportamentos identificados está o que a casa chama de terceirização emocional e estratégica. Nesse cenário, mulheres delegam a condução dos assuntos financeiros e patrimoniais a maridos, irmãos, gestores ou outras pessoas da família, sem necessariamente acompanhar as decisões ou ter acesso às informações utilizadas para orientar a administração dos bens.
A pesquisa também identificou insegurança e desconforto na abordagem de questões financeiras. Algumas mulheres demonstram receio de solicitar informações sobre o patrimônio, consideram o assunto excessivamente burocrático ou não se sentem preparadas para participar das discussões sobre investimentos e sucessão.
Segundo Márcia Dolores, fundadora da Mardô Family House Integration, esse comportamento atravessa gerações e não está restrito às mulheres mais velhas.
A casa observa que jovens da Geração Z também reproduzem padrões de afastamento identificados entre suas mães e avós, mesmo tendo maior acesso à informação. Para Dolores, a mudança depende de uma preparação que permita às mulheres compreender não apenas os direitos sobre os bens, mas também as responsabilidades envolvidas na administração e na continuidade do patrimônio.
Herança não significa participação nas decisões
A diferença entre ter direito sobre um patrimônio e participar efetivamente de sua administração é um dos pontos centrais do debate sobre governança familiar.
No contexto jurídico, a sucessão patrimonial estabelece quem tem direito aos bens deixados por uma pessoa após sua morte, observadas as regras legais e o regime de bens aplicável. A participação no inventário, por sua vez, permite que herdeiros e demais interessados acompanhem os procedimentos de identificação, avaliação e partilha do patrimônio. Entretanto, a titularidade de bens ou o recebimento de uma herança não significam, automaticamente, que a pessoa esteja preparada ou inserida nas decisões estratégicas relacionadas à gestão dos ativos.
Em famílias empresárias, essas decisões podem envolver a administração de empresas, a escolha de investimentos, a distribuição de dividendos, a proteção patrimonial e o planejamento da transferência de responsabilidades entre gerações.
É nesse contexto que ganha importância a governança familiar, conjunto de práticas e estruturas que organiza a relação entre os integrantes da família, os negócios e o patrimônio. A proposta é estabelecer regras de participação, responsabilidades e acesso às informações, reduzindo a concentração das decisões em poucas pessoas. A ausência desses mecanismos pode deixar herdeiros e cônjuges dependentes das informações fornecidas por terceiros, dificultando a identificação de riscos e a fiscalização da administração dos recursos.
Mulheres devem concentrar parte crescente da riqueza global
O cenário ganha relevância diante da perspectiva de uma transferência expressiva de patrimônio entre gerações nas próximas décadas.
Segundo os dados apresentados pela Mardô, a transferência global de riqueza pode alcançar aproximadamente US$ 83 trilhões nos próximos 20 a 25 anos. Nesse processo, as mulheres devem ocupar uma posição central, tanto por meio de heranças quanto pela sucessão patrimonial decorrente da morte de cônjuges.
A casa aponta que, até 2030, mulheres poderão controlar quase 40% da riqueza investível mundial.
Na Europa, a projeção apresentada no levantamento indica que os ativos sob controle feminino devem passar de US$ 6,6 trilhões, em 2023, para US$ 11,4 trilhões até 2030. O montante representaria 47% dos ativos investíveis da região.
Nos Estados Unidos, a estimativa é de que US$ 40 trilhões sejam destinados a mulheres viúvas da geração baby boomer até 2048, dentro de um movimento de transferência patrimonial entre cônjuges.
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