2026REUTERS/Cheney Orr
A decisão do presidente Donald Trump de ampliar temporariamente a importação de carne bovina para tentar reduzir o preço da carne moída provocou uma reação imediata entre pecuaristas e entidades do setor nos Estados Unidos. Quatro das principais organizações ligadas à pecuária americana pediram ao governo que reveja a medida, sob o argumento de que a entrada de até 300 mil toneladas de carne em 90 dias pode derrubar a remuneração dos produtores e atrapalhar a reconstrução do rebanho americano.
A preocupação é especialmente forte porque a pecuária dos Estados Unidos começa, agora, a dar os primeiros sinais de recuperação depois de anos de redução do número de animais. Para as entidades, aumentar a oferta de carne importada justamente neste momento pode aliviar o preço para o consumidor no curto prazo, mas retirar do produtor o incentivo econômico para ampliar o rebanho no médio e longo prazo.
A AFBF (American Farm Bureau Federation) foi uma das entidades que criticaram a decisão. A organização afirmou que medidas de curto prazo podem produzir efeitos negativos de longo prazo para produtores e consumidores. A National Cattlemen's Beef Association também se posicionou contra a estratégia.
A reação ocorre depois de Trump assinar uma proclamação que autoriza, durante 90 dias, a entrada adicional de até 300 mil toneladas de carne bovina destinada à produção de carne moída, sem a tarifa adicional normalmente cobrada sobre volumes que ultrapassam as cotas existentes. O presidente afirma que a medida ajudará a reduzir os preços ao consumidor e que existe o compromisso de que a carne importada seja comercializada 25% abaixo dos preços atuais.
Brasil pode ocupar parte desse espaço
Enquanto os pecuaristas americanos pressionam contra a medida, o setor exportador brasileiro enxerga uma oportunidade. A Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes) avalia que a abertura temporária do mercado americano pode ampliar as vendas brasileiras aos Estados Unidos. A entidade, porém, mantém cautela porque o benefício não necessariamente se transforma em ganho de margem para os frigoríficos.
Isso ocorre porque a regra americana prevê que a carne importada seja vendida com desconto de 25% em relação ao preço de mercado. Na avaliação da Abiec, a exigência limita o ganho econômico dos exportadores, embora a demanda americana aquecida continue tornando o mercado atraente.
O Brasil pode ter uma participação relevante nesse volume. Uma estimativa citada pela CNN Brasil aponta que os exportadores brasileiros poderiam ocupar entre 30% e 40% da nova janela, o equivalente a algo entre 90 mil e 120 mil toneladas.
O movimento é significativo porque acontece depois de um período em que a relação comercial entre os dois países foi prejudicada pelo tarifaço americano. Agora, a necessidade dos Estados Unidos de aumentar a oferta de carne abre uma oportunidade justamente para um dos maiores exportadores mundiais.
Por que os americanos estão importando mais carne?
O problema que levou Trump a tomar a decisão começa no campo. O rebanho de vacas de corte dos Estados Unidos caiu para 28,5 milhões de cabeças em julho, o menor nível da série histórica iniciada em 1971. A safra de bezerros também permanece historicamente baixa, em aproximadamente 32,5 milhões de cabeças.
A redução do rebanho é resultado de uma combinação de fatores. Anos de seca obrigaram pecuaristas a reduzir os plantéis, enquanto os custos de produção aumentaram significativamente.
Segundo dados do USDA citados pela Farm Bureau, o custo de produção dos criadores de gado de corte chegou a US$ 1.762 por cabeça em 2025. Desde 2020, o aumento foi superior a US$ 400 por animal, ou quase 30%.
A menor oferta de animais acabou chegando ao consumidor. O preço da carne moída atingiu níveis recordes nos Estados Unidos, o que levou o governo Trump a procurar uma solução rápida para aumentar a oferta no mercado.
E o rebanho começa a se recuperar
O número de novilhas mantidas para reposição aumentou 3% em relação ao ano anterior. É um indicador importante porque significa que produtores estão deixando de vender parte das fêmeas jovens para colocá-las na reprodução.
Entretanto, a importação adicional pode pressionar para baixo os preços recebidos pelos pecuaristas justamente quando eles precisam de preços suficientemente elevados para justificar a retenção das fêmeas.
Existe ainda uma questão de calendário. Cerca de 70% dos bezerros nascidos na primavera são comercializados entre setembro e novembro, segundo a análise da Farm Bureau. Esse período coincide justamente com os 90 dias da nova janela de importação.
cnnbrasil