Instagram/ Renata Mietto
A atriz brasileira Renata Alves Mietto, 26, está detida pelo ICE (Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos) desde 27 de agosto, quando foi abordada antes de embarcar em um voo de Los Angeles para o Havaí. À CNN Brasil, as autoridades do país afirmaram que a brasileira estava no país com o período autorizado de permanência expirado e seguirá sob custódia enquanto aguarda o andamento do processo de remoção.
A mãe da atriz, Márcia Reis, por sua vez, questionou a manutenção da jovem em detenção e relatou condições precárias nos centros pelos quais ela passou. Segundo Márcia, Renata perdeu peso, está emocionalmente abalada e enfrentou, entre outras situações, banheiros e chuveiros sem portas, presença de ratos e uma transferência de horas algemada e sem acesso a água ou comida.
Procurado pela reportagem, o ICE respondeu sobre as circunstâncias da prisão e a situação migratória de Renata, mas não comentou especificamente as condições relatadas pela família.
O que diz o ICE
Segundo o órgão, a brasileira havia sido admitida nos Estados Unidos em 14 de agosto de 2019, em caráter temporário, mas "violou os termos de seu status e não deixou os Estados Unidos após o vencimento do período autorizado de permanência".
O ICE acrescentou que Renata "permanecerá sob custódia enquanto aguarda o resultado de seu processo de remoção".
De acordo com sua mãe, Renata chegou aos Estados Unidos em 2016, aos 16 anos, com visto de estudante. A jovem cursou três anos do equivalente ao Ensino Médio americano e, posteriormente, ingressou em universidade americana para estudar artes cênicas.
De acordo com a mãe, 2019 teria sido o ano da última viagem da filha ao Brasil e de seu posterior retorno aos Estados Unidos — o que explicaria a data mencionada pelo ICE.
Anos depois, já em Los Angeles, Renata teria tentado dar continuidade aos estudos, mas, segundo Márcia, não conseguiu fazer a matrícula dentro do prazo e perdeu o status migratório. A família afirma que buscava orientação para que ela pudesse regularizar a situação e voltar à universidade.
"Nós pegamos uma consultoria de uma pessoa que falou que, mesmo que já tivesse vencido o visto dela, que ela estava sem status, ela ainda poderia retornar para a faculdade", contou Márcia.
Mãe relata transferência algemada e horas sem água
Segundo a mãe, Renata estava sozinha no aeroporto quando foi abordada por dois homens próximo ao portão de embarque. Eles teriam mostrado uma fotografia da atriz e perguntado se era ela.
Márcia contou que começou a procurar a filha após não receber resposta às mensagens e ligações. Quando finalmente conseguiu falar com Renata, a conversa teria sido breve.
"Ela disse: ‘Mãe, eles estão aqui comigo, estão me levando e eu preciso de um advogado’", relatou.
A família então contratou advogados, que, segundo Márcia, conseguiram encontrá-la ainda no mesmo dia. A brasileira teria sido inicialmente levada para uma unidade em Los Angeles e, posteriormente, para um centro de detenção do ICE em Adelanto, na Califórnia.
Em 18 de setembro, Renata participou de uma audiência na qual a defesa pediu que ela pudesse responder ao processo em liberdade mediante pagamento de fiança. O pedido, segundo a mãe, foi negado sob o argumento de que haveria risco de fuga.
Márcia afirma que a defesa apresentou mais de 50 cartas de recomendação e indicou pessoas dispostas a atuar como responsáveis pela brasileira durante o processo.
No dia seguinte à audiência, Renata foi transferida para o Texas, onde permanece detida.
Márcia afirma que a transferência entre os centros de detenção ocorreu durante a madrugada de 19 de setembro e durou várias horas.
Segundo o relato, Renata deixou a unidade por volta das 4h e chegou ao destino no Texas somente por volta das 21h.
"Ela ficou dentro de uma van, acorrentada pelos pés, pelas mãos, algemada e pela cintura, durante horas, sem poder tomar água, sem comer, sem fazer xixi."
Márcia também disse que, ao chegar à unidade, a filha permaneceu durante a noite e boa parte do dia seguinte em uma sala fria, sentada em um banco, o que teria totalizado 20 horas. Segundo ela, Renata pediu autorização para pegar um suéter que estava entre seus pertences, mas o pedido teria sido recusado.
"Ela passou muito frio nesse dia. Quando conseguiu entrar, estava com a garganta sangrando", relatou.
A mãe afirma ainda que as instalações onde a filha está detida apresentam problemas de higiene e privacidade. De acordo com os relatos que recebe da atriz, os banheiros e chuveiros seriam abertos, sem portas, e os bebedouros estariam localizados dentro da área dos banheiros.
Márcia também diz que Renata relatou a presença de ratos na unidade.
"A comida é muito ruim. Os banheiros são todos abertos, não existe porta nenhuma. Ela me falou agora que tem rato lá dentro", disse.
Segundo a mãe, a filha, que já era magra, perdeu mais de quatro quilos nas primeiras semanas de detenção. Márcia acredita que a perda de peso tenha aumentado desde então.
"Ela está extremamente abalada", diz mãe
Além das condições físicas, Márcia demonstra preocupação com o estado emocional da filha. O contato entre as duas ocorre por ligações feitas pela própria Renata, por meio de um sistema do ICE.
"Ela está muito abalada. Ela chora o tempo todo, todas as vezes que liga", afirmou.
Segundo Márcia, a atriz questiona frequentemente por que permanece presa enquanto aguarda uma decisão sobre sua situação migratória.
"Mãe, não estou acreditando que isso está acontecendo comigo. Qual foi o crime que eu cometi para estar aqui, para estar passando por isso?", teria dito Renata à mãe durante uma das ligações.
Márcia também afirma que a distância dificultou as visitas desde a transferência para o Texas. Diferentemente do centro de Adelanto, onde havia dias e horários estabelecidos para visitação, segundo ela, na atual unidade é necessário fazer um agendamento prévio, e a família relata dificuldades para conseguir contato por telefone.
A próxima audiência, segundo a mãe, está prevista para 13 de outubro.
Governo defende política migratória mais rígida
Na resposta encaminhada à CNN Brasil sobre o caso, o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS) também defendeu a política migratória adotada pelo governo do presidente Donald Trump.
O órgão afirmou que reverteu uma política da administração anterior que, segundo o próprio DHS, permitia que pessoas em situação migratória irregular viajassem de avião dentro do país. A declaração enviada ressaltou que a atual administração não permitirá esse tipo de deslocamento.
O DHS também defendeu que imigrantes sem status regular utilizem o aplicativo CBP Home para deixar voluntariamente os Estados Unidos. Segundo o órgão, o governo oferece US$ 3 mil e uma passagem aérea para quem aderir ao programa de "autodeportação".
"Estar em detenção é uma escolha", afirmou o departamento na nota enviada. O governo acrescentou que pessoas que permaneçam irregularmente no país estão sujeitas a prisão e deportação.
A família de Renata, por sua vez, questiona a necessidade de a atriz permanecer presa enquanto o caso é analisado.
"Mesmo que eles falassem: ‘Você não tem mais o direito de ficar aqui, você tem que voltar’, tudo bem. Mas para que prender uma pessoa que não tem absolutamente nada desfavorável, a não ser porque estava fora de status?", questionou Márcia.
A mãe afirma que a expectativa da atriz era conseguir uma oportunidade para regularizar sua situação e permanecer nos Estados Unidos, onde vive desde a adolescência e construiu sua trajetória acadêmica e profissional.
"Ela só está querendo uma oportunidade de ter uma vida melhor, de construir a vida dela. Ela saiu com 16 anos. Ela está construindo a vida dela aqui", afirmou.
CNN Brasil