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O pastor Delion Moraes, que teria ido a casa de Marta Isabele na noite anterior à constatação da morte da adolescente segundo relatos, deu uma entrevista para a reportagem do Fala Rondônia, buscando esclarecer sua participação no caso.
Segundo o religioso, ele foi convidado para orar pela jovem na residência a pedido da família, e afirmou que desconhecia completamente as agressões sofridas pela vítima.
Segundo o pastor, a família relatou que Marta Isabelle teria voltado para casa após receber alta hospitalar em estado grave, com os médicos não identificando causas para seu quadro clínico. "Os médicos fizeram todo tipo de exame, e não encontraram nada. Então ela foi mandada para casa para falecer, segundo eles me passaram. E eu senti de ir orar pessoalmente na casa", contou.
Ao chegar ao local, o religioso se deparou com uma cena que o impactou profundamente. "Quando eu cheguei lá vi a situação que a jovem estava, né?! Uma situação muito delicada, uma coisa que nunca vi na minha vida, nesse tempo de ministério que eu sirvo a Deus. É a primeira vez que eu vi uma situação como aquela", relatou.
No relato, o pastor indica que não viu indícios de que a menina estivesse sendo vítima de maus-tratos. "Mas nunca imaginei que ela estava sendo vítima de tortura, de maus tratos, entendeu? Porque aparentemente estava tudo normal. Então cheguei lá, prestei meu serviço religioso, fiz minha oração, apresentei a vida dela a Deus, né?! E fiz a minha parte, né?! Que cabe ao meu chamado como pastor fazer", declarou.
Impacto diante do estado da vítima
O religioso, que possui anos de ministério e já prestou assistência em diversas situações, incluindo velórios, admitiu ter ficado impressionado com o estado em que encontrou Marta Isabelle. "Eu já orei por muitas pessoas na minha vida, pessoas enfermas, pessoas com cadeira de rodas, pessoas também que já estavam à beira da morte. Já fui em culto fúnebre, orar por familiar em velório... Só que quando eu via aquela situação, eu fiquei impressionado. A situação que a menina tava era muito complicada mesmo. Eu vi ali a carne, os ossos, eu fiquei impactado", descreveu.
Diante da gravidade, o pastor afirma ter compreendido que não havia mais solução do ponto de vista físico. "Eu vi que ali não tinha mais jeito. A única solução era apresentar a alma dela para Jesus, para que Deus venha a ter misericórdia, porque no meu íntimo ali, eu sentia que não tinha mais solução ali. Mas eu apresentei, fui fazer o meu trabalho religioso, apresentei a alma dela para Jesus, para que tenha misericórdia, ou até mesmo, através da minha fé, que ela apresentasse sintomas de melhora, né?! Mas no outro dia, infelizmente ela veio a óbito, né?! Eu não queria isso. Eu queria que ela melhorasse, mas, eu falei: 'Que seja feita a vontade de Deus'", completou.
Esclarecimentos à polícia
O pastor confirmou que compareceu à delegacia acompanhado de seu advogado para prestar esclarecimentos. Ele negou ter qualquer envolvimento na morte de Marta Isabelle ou ter sido implicado no inquérito que investiga pai, madrasta e avó da vítima.
"Prestar serviço para a sociedade. Todas as pessoas que pedem oração eu me desloco para casa, vou até a residência, faço a oração, não importa. A gente que serve a Deus não pode negar, né?! Uma oração, uma visita", justificou o religioso sobre sua presença na casa da família antes do falecimento.
O que a madrasta disse à polícia
Ivanice Farias, madrasta da vítima, foi quem acionou a Polícia Militar no dia que foi constatada a morte de Marta Isabelle. Ela alegou que a enteada estava desaparecida há dois meses, e que teria retornado para casa naquela manhã já muito debilitada, vindo a óbito horas depois.
De acordo com a ocorrência, Ivanice apresentou nervosismo e contradições sucessivas durante a entrevista preliminar. Ela afirmou que a adolescente teria chegado descalça, extremamente ferida e mal conseguindo falar. No entanto, não soube explicar por que a polícia só foi acionada no momento da morte, e não quando a jovem havia supostamente desaparecido.
A versão foi rapidamente descartada pela perícia. O corpo de Marta apresentava sinais de desnutrição severa, dentes quebrados, fratura exposta no braço, fratura na clavícula e feridas profundas nas costas com presença de larvas — características incompatíveis com a alegação de que ela teria chegado caminhando naquela manhã.
O que os vizinhos ouviram
Moradores da Rua Afonso Brasil, no setor chacareiro do bairro Jardim Santana, relataram à polícia que não viam Marta Isabelle desde a semana do Natal. Sempre que questionavam sobre o paradeiro da adolescente, os familiares apresentavam versões diferentes.
Alguns vizinhos foram informados de que a jovem estaria em um retiro da igreja. Outros ouviram que ela teria ido passar uma temporada na casa de parentes. Nenhuma das pessoas ouvidas tinha conhecimento de que a família tivesse registrado boletim de ocorrência sobre o desaparecimento.
O que a enteada revelou
O depoimento de Quefane Vitória, filha da madrasta Ivanice, foi determinante para confirmar o histórico de maus-tratos. Ela relatou às autoridades que a adolescente já sofria agressões constantes dentro de casa muito antes do agravamento do quadro.
Familiares de Ivanice ouvidos pela polícia corroboraram a informação, indicando que os abusos contra Marta Isabelle não eram recentes e que a família já tinha conhecimento de conflitos envolvendo a vítima.
O que o pai confessou
Inicialmente, a avó paterna, Benedita Maria da Silva, afirmou que o filho, Callebe José da Silva, não tinha conhecimento da situação. A versão caiu por terra quando o próprio pai confessou seu envolvimento.
Callebe admitiu que passou a manter a filha em cárcere após uma suposta fuga meses atrás. Para impedir novas saídas, declarou que a amarrava à cama utilizando fios elétricos, colocando panos sob os fios antes de apertar os nós.
O pai não soube explicar a origem das fraturas expostas nem o estado avançado dos ferimentos. Disse apenas que cortou o cabelo da filha porque ela estaria com piolhos.
O que a perícia encontrou
Nos fundos da chácara, policiais localizaram uma fogueira ainda acesa com grande quantidade de fraldas descartáveis e roupas da vítima sendo queimadas — indício de que os familiares tentavam eliminar provas.
O laudo preliminar do Instituto Médico Legal (IML) confirmou que o estado de saúde da adolescente era incompatível com qualquer tentativa de locomoção nos últimos dias ou semanas, desmontando por completo a versão apresentada pela madrasta à polícia.
Portal SGC