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Rondônia

"Refugiados" do próprio chão: A luta por dignidade na Flona Bom Futuro em Rondônia

Diante do esgotamento das instâncias locais, a ARBF formalizou, ao final de 2025, uma denúncia grave à Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado


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Claudia Lopes preside a Associação Rural que encampa a luta

Fernando Pereira/SGC

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No coração do noroeste de Rondônia, o Distrito de Rio Pardo tornou-se o epicentro de uma das crises humanitárias mais persistentes da Amazônia. O que deveria ter sido uma solução administrativa para viabilizar o progresso energético do país transformou-se em um labirinto de promessas quebradas, violência e desamparo jurídico para centenas de famílias. Hoje, o grito de socorro dessas comunidades ecoa nos corredores do Congresso Nacional, enquanto aguardam a chegada de uma missão oficial que pode ser a última esperança de justiça.

O Acordo Silencioso: A Floresta como Moeda de Troca

A história remonta a 2009, quando um acordo de permuta entre o Governo Federal e o Governo de Rondônia selou o destino da Floresta Nacional (FLONA) Bom Futuro. Para viabilizar a construção da Usina Hidrelétrica de Jirau, no Rio Madeira, a União aceitou reduzir a unidade de conservação de 250 mil para apenas 97 mil hectares. Em troca, o estado cedeu terras de suas reservas para compensação ambiental e comprometeu-se a regularizar a situação de mais de 5.000 famílias que viviam na área.

Contudo, o que se seguiu foi um desmonte das garantias sociais. Em 2011, um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) foi firmado entre o Estado, o Ministério Público e o ICMBio para assegurar a realocação e o direito à subsistência dos moradores. Mas o documento nunca saiu plenamente do papel. Relatos apontam que, das centenas de famílias que aguardavam um novo lar, apenas uma pequena parcela foi movida — e, em muitos casos, para terras que já tinham donos legais, gerando novos despejos e deixando os trabalhadores em um limbo absoluto.

Violência e Desamparo no Campo

A ausência do Estado na garantia de direitos foi preenchida, segundo denúncias da Associação Rural Bom Futuro (ARBF), por ações truculentas. Moradores relatam episódios de queima de moradias, destruição de plantações e contaminação de poços, muitas vezes atribuídos a agentes públicos em operações repressivas que ignoram o contexto social da região.

A situação agravou-se em novembro de 2025, com a publicação de uma portaria do Ministério do Meio Ambiente (Portaria GM/MMA nº 1.505/2025) que autoriza a concessão de manejo florestal na área. Para a comunidade, a medida prioriza o lucro empresarial enquanto ignora a existência de famílias que estão no local há décadas.


A Voz da Resistência: "Não Queremos Favores, Queremos Direitos"

À frente dessa resistência está Claudia Lopes Cavalheiro, presidente da ARBF. Para ela, a luta vai muito além da posse da terra; é uma batalha pelo reconhecimento da existência humana diante das engrenagens do desenvolvimento.

"Nossa luta é por dignidade. Não estamos aqui pedindo favores ao Estado, estamos exigindo que ele cumpra o que prometeu e garanta nossos direitos básicos de cidadania", afirma Claudia Lopes. "São famílias que foram jogadas de um lado para o outro por causa de hidrelétricas e acordos políticos. O que buscamos é a garantia de que nossos filhos possam crescer em um chão que é seu por direito, com segurança e sem o medo constante de ver sua casa destruída."

A Esperança no Senado Federal

Diante do esgotamento das instâncias locais, a ARBF formalizou, ao final de 2025, uma denúncia grave à Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado Federal. O documento, assinado por Claudia Lopes, detalha o descumprimento do TAC e as violações sofridas pela comunidade.

A Associação agora aguarda com urgência uma diligência in loco da Comissão. O pedido solicita que os senadores visitem o Distrito de Rio Pardo para ouvir diretamente as famílias e verificar as condições de vida no local. Além disso, a comunidade cobra a intervenção do Senado junto a órgãos como o ICMBio e a SEDAM para que a regularização fundiária saia das promessas e se torne realidade.

Enquanto a comitiva de Brasília não vem, as famílias de Bom Futuro permanecem em vigília, e sem perspectiva desse "futuro bom" que o nome da região parece "profetizar". Para eles, o tempo não é medido em anos de espera, mas na incerteza de cada novo amanhecer em uma terra que o Estado insiste em dizer que não lhes pertence.Rostos do Desamparo: O Relato de quem Perdeu Tudo


Rostos do Desamparo: O Relato de quem Perdeu Tudo

A tragédia humanitária ganha contornos ainda mais nítidos nos depoimentos que chegam ao Poder Judiciário. Em um relato contundente enviado a um magistrado, o produtor Manoel Pereira dos Santos narra a dor de quem dedicou a vida à terra e acabou tratado como criminoso. Manoel chegou a Rondônia em 1976, enfrentou a malária, o fogo selvagem e "trabalhou igual a um doido" plantando café, arroz e milho para construir seu sustento. Em 2012, após décadas de suor e com a posse reconhecida anos antes, ele foi preso sob a acusação de invasão.

"Eu investi quase tudo o que fiz desde 1976 até 2012 nesta posse. Estou perdendo tudo, Excelentíssimo Senhor Juiz, e ainda fui preso e processado como um criminoso, sendo que nunca matei, nunca roubei, nunca briguei", desabafa o produtor na carta. O relato de Manoel sintetiza a falha trágica do Estado: ele afirma que só aceitaria sair de sua área quando o Governo cumprisse a promessa, feita em 2008, de colocá-lo em outra terra — promessa que, para ele e tantos outros, tornou-se apenas papel molhado.

Fernando Pereira


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