Porto Velho (RO)04 de Junho de 202617:20:55
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Saúde

Projetos apostam em tecnologia para ampliar saúde mental no SUS

Pesquisador defende uso de ferramentas digitais para atender pacientes que ficam sem assistência, especialmente fora dos grandes centros


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Unsplash

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O acesso a cuidados em saúde mental ainda está longe da realidade de milhões de brasileiros. Embora transtornos como depressão e problemas relacionados ao uso de álcool afetem uma parcela significativa da população, boa parte das pessoas que precisam de ajuda não recebe qualquer tipo de atendimento.

Para especialistas, a tecnologia pode ajudar a reduzir essa distância. O tema foi discutido pelo psiquiatra Paulo Rossi Menezes durante o Brain Congress 2026, que acontece entre os dias 2 e 6 de junho, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul.

Professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador da área de saúde mental digital, ele apresentou projetos que utilizam aplicativos e plataformas tecnológicas para ampliar o acesso ao cuidado, especialmente na atenção básica do Sistema Único de Saúde (SUS).

Segundo Menezes, a necessidade é urgente. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde mostram que cerca de 12% da população adulta apresenta sintomas de depressão que demandam algum tipo de acompanhamento. Isso representa mais de 15 milhões de brasileiros.

"Hoje temos aproximadamente uma em cada quatro pessoas com sintomas de depressão recebendo algum tipo de cuidado. E não estamos falando necessariamente de um cuidado efetivo", afirmou.

Em regiões mais remotas, a situação é ainda mais delicada. Em um estudo realizado nos municípios de Tefé e Coari, no Amazonas, apenas cerca de 4% das pessoas com sintomas depressivos recebiam algum tipo de atenção em saúde mental. "São locais com boa cobertura da Estratégia Saúde da Família , mas sem profissionais especializados. As pessoas praticamente não têm acesso ao cuidado", aponta.

Tecnologia como apoio na atenção básica

Foi a partir desse desafio que surgiram os projetos coordenados por Menezes e sua equipe. Há cerca de 15 anos, os pesquisadores começaram a desenvolver um aplicativo voltado para pessoas com sintomas de depressão associada a doenças crônicas, como hipertensão e diabetes.

A ferramenta utiliza técnicas de ativação comportamental, uma abordagem já validada cientificamente para o tratamento da depressão, e pode ser acompanhada por profissionais da atenção básica sem formação especializada em saúde mental.

O modelo foi testado em estudos realizados em unidades de saúde da zona leste de São Paulo e também em Lima, no Peru. Os resultados mostraram que pacientes que utilizaram o aplicativo apresentaram recuperação mais rápida quando comparados aos que receberam apenas os cuidados tradicionais oferecidos pelas equipes de saúde.

A experiência serviu de base para novos projetos desenvolvidos pelo Centro Nacional de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental, criado em 2022 por pesquisadores da USP e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Além da depressão, as versões mais recentes da ferramenta passaram a incluir conteúdos voltados para ansiedade e insônia, que frequentemente aparecem de forma associada.

Teste em unidades de saúde

Atualmente, uma nova etapa do projeto está sendo conduzida em unidades básicas de saúde dos municípios paulistas de Indaiatuba e Jaguariúna. Nessas unidades, pacientes podem escanear um QR Code disponível nas salas de espera e responder a um questionário de triagem sobre saúde mental. Dependendo do resultado, o sistema recomenda o uso do aplicativo.

Nos primeiros quatro meses da iniciativa, 276 pessoas acessaram a avaliação. Destas, 136 apresentaram sintomas compatíveis com sofrimento psíquico e foram orientadas a utilizar a ferramenta. Segundo Menezes, metade dos participantes apresentava sintomas classificados como graves.

"São pessoas que estão com um sofrimento importante e que agora conseguem ter uma possibilidade de acesso ao cuidado", afirmou.

Os pesquisadores ainda trabalham para aumentar a adesão dos usuários ao aplicativo, um dos principais desafios identificados até o momento.

Plataforma para o SUS

Os projetos atuais fazem parte de uma proposta maior que pretende criar uma plataforma integrada de saúde mental para o SUS. A iniciativa foi aprovada em um edital de inovação tecnológica do Ministério da Saúde e prevê ferramentas voltadas para pacientes, profissionais da atenção básica e gestores.

A ideia é que o sistema ofereça orientações para usuários, ajude profissionais não especializados na tomada de decisões clínicas e produza informações que permitam acompanhar a situação da saúde mental nos municípios.

O projeto também prevê, no futuro, a incorporação de recursos de inteligência artificial para auxiliar algumas etapas do cuidado. No entanto, segundo o pesquisador, essa ainda não é a prioridade.

Apesar da aprovação da proposta, a implementação da plataforma depende da liberação dos recursos previstos pelo Ministério da Saúde. "Estamos na expectativa de que o financiamento seja liberado para que possamos desenvolver a plataforma e, no futuro, avaliar sua incorporação ao SUS", destacou.

Para Menezes, diante da escassez de profissionais especializados e das desigualdades no acesso ao atendimento, a tecnologia pode funcionar como uma ferramenta complementar para aproximar cuidados em saúde mental de quem hoje permanece sem assistência.










Metrópoles


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