Porto Velho (RO)27 de Abril de 202612:15:31
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Farmácia viva: saiba como a Amazônia pode ajudar a tratar doenças

Por ser uma floresta com bastante extensão, a Amazônia guarda compostos valiosos para a produção de medicamentos para humanos


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Rafael Vilela for The Washington Post via Getty Images

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Quando você está com dor ou recebe o diagnóstico de alguma doença, saiba que há a possibilidade do tratamento indicado ser feito com remédios com origem amazônica. Considerada umas das maiores riquezas naturais do mundo, a Amazônia é repleta de compostos com potencial para ser a base de medicamentos eficazes.

Claro que para achar novos medicamentos não é só simplesmente chegar na Amazônia e sair com o tratamento na mão. Ao identificar plantas, animais ou organismos com potencial biológico, há um longo processo até que o remédio seja produzido.

A procura por candidatos medicamentosos é feita por pesquisadores, especialmente os que têm mais conhecimento na região amazônica. A comunidade local também tem papel importante, pois o conhecimento passado de geração para geração é essencial para nortear os trabalhos de busca.

"A biodiversidade amazônica deve ser compreendida como uma fonte de candidatos a medicamentos, cujo aproveitamento depende de pesquisa científica robusta, conduzida de forma ética e em diálogo com os conhecimentos e atores locais", explica bióloga Lays Cherobim Parolin, professora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

Após a identificação de substâncias com potencial, os compostos passam por diversas pesquisas, incluindo estudos pré-clínicos e ensaios clínicos em humanos, a fim de testar sua capacidade, se são seguros e eficazes.

"Embora a Amazônia represente uma fonte extremamente promissora de moléculas bioativas, apenas uma fração dessas substâncias foi efetivamente convertida em medicamentos amplamente utilizados", diz Lays.

Entre os principais feitos medicamentosos através de compostos amazônicos, estão o captopril, um remédio para pressão alta proveniente do veneno de cobras; pilocarpina, um colírio para tratar glaucoma proveniente das folhas de um planta nativa; e os bloqueadores neuromusculares usados em procedimentos anestésicos derivados de um veneno de outra planta.

Além deles, há outras substâncias sendo estudadas atualmente, como a planta jaborandi (Pilocarpus microphyllus), óleos extraídos de árvores como a andiroba e do gênero copaifera e até os compostos do açaí.

"Há potencial para tratar diversas doenças com compostos encontrados na floresta. Isso inclui doenças infecciosas associadas ao ambiente, como a malária, além de condições como pressão alta e excesso de açúcar no sangue", aponta o professor Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP).

Apesar de importante, explorar a Amazônia não é fácil

Mesmo sendo muito famosa no mundo inteiro, desvendar a Amazônia passa longe de ser uma missão "fichinha". Além da grande extensão, a região conta com barreiras físicas, ambientais e logísticas que impedem uma exploração mais abrangente de novas espécies. Muitas plantas, animais ou organismos que vivem lá há anos sequer foram encontrados - e talvez nunca sejam, a depender do local onde vivem.

O jeito dos pesquisadores para superar algumas das dificuldades é contar com o auxílio do conhecimento das populações locais, que podem indicar regiões ou até mesmo espécies com potencial medicamentoso. Por isso, é tão importante cuidar dos povos nativos.

"É essencial desenvolver métodos que permitam estudar esses compostos e, ao mesmo tempo, garantir que os benefícios retornem para as populações da região amazônica e contribuam para a preservação do ecossistema, não ficando concentrados em grandes empresas externas", ressalta Artaxo, que também é membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Desmatamento atrapalha potencial da Amazônia

Outro fator que impacta a busca por novos medicamentos na Amazônia é o desmatamento. O motivo é simples e quase auto explicável: se o ecossistema é destruído, as espécies deixam de existir e, consequentemente, não são encontradas para serem estudadas.

"Quando um ecossistema é destruído, estamos potencialmente descartando oportunidades únicas de desenvolvimento de novos medicamentos", resume Artaxo.

Para o professor, o Brasil precisa diminuir os impactos do desmatamento, além de criar programas que permitam a exploração da Amazônia de forma responsável e sem impactar a biodiversidade local.


Jorge Agle - Metrópoles


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