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Em um país que ainda precisamos ensinar as pessoas a não jogar papel na rua, cabe perguntar: faz sentido falar de voluntariado? Ou estamos simplesmente lavando a consciência em nome do marketing social?
Vivemos numa sociedade cuja educação foi reduzida a técnicas de aprovação — decorar, responder, passar no vestibular — enquanto a formação do ser humano, aquela que molda caráter, empatia e responsabilidade coletiva, foi empurrada para a beira do quadro da sala de aula. Resultado: cidadãos que sabem medir tempo de prova, mas não sabem medir o impacto de um papel jogado na calçada. E, diante disso, qual é o papel do voluntariado? Pauta relevante — sem dúvida —, mas muitas vezes tratada como tema trendy, item de currículo, foto para feed.
Não é suficiente promover ações pontuais ou campanhas com boa fotografia. Voluntariado, para ser transformador, exige que entre no cotidiano, no vocabulário das crianças, no roteiro das famílias, nas prioridades das escolas. Só assim deixa de ser "coisa de bem-intencionado" e passa a ser instrumento de construção social. Enquanto continuarmos a ensinar competição rasa e a premiar sucesso individual acima do bem comum, iniciativas voluntárias serão, infelizmente, gotas num oceano de indiferença.
E não se engane: quando digo que o voluntariado é poderoso, não falo de heroísmo dramático. Falo de pequenas práticas—ajudar a arrumar uma praça, ensinar uma criança a ler, recolher lixo numa calçada—que, somadas, alteram percepções. A transformação começa por reconhecer que o benefício principal não é só para o outro; é para quem se envolve. Desenvolve empatia, senso de pertencimento, responsabilidade. E isso não aparece em bullet points de currículo, mas molda cidadãos.
Às vezes penso que expor a questão sem açúcar é a única forma de avançar. Não é questão de desistir, mas de insistir com crítica: é preciso desconstruir a mercantilização do bem e reconstruir práticas que convivam com o dia a dia das pessoas. Educação formal que não valoriza o humano e políticas públicas que subestimam a participação cidadã minam qualquer esforço voluntário bem-intencionado.
Não pretendo, nem devo desistir de tornar o voluntariado palatável e corriqueiro — e muito menos desistir de inseri-lo no vocabulário infantil e juvenil. Pelo contrário: é um desafio que vale a pena, por que salvar uma geração é o único investimento que garante retorno real. E se chovemos no molhado? Talvez. Mas prefiro continuar a molhar, até que a terra aprenda a absorver.
Roberto Ravagnani