Porto Velho (RO)31 de Julho de 202619:08:08
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MPF denuncia 33 pessoas por atuação em esquema criminoso transnacional

Operação Rota Andina apura tráfico internacional de drogas, lavagem de dinheiro e outros crimes; Justiça bloqueou R$ 78,1 milhões em bens


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Divulgação MPF

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O Ministério Público Federal (MPF) denunciou 33 pessoas por participação em uma estrutura criminosa transnacional responsável pela importação de cocaína da Bolívia, pelo financiamento da logística do tráfico internacional e pela lavagem de dinheiro proveniente da atividade ilícita. A pedido do MPF, a Justiça Federal determinou o bloqueio de R$ 78,1 milhões em bens e valores dos denunciados, incluindo imóveis, aeronaves, veículos de alto valor e recursos financeiros.

As denúncias abrangem os crimes de tráfico internacional de entorpecentes, lavagem de dinheiro, crimes contra o sistema financeiro, organização criminosa e falsificação de documentos.

Origem da investigação

A investigação teve início em 20 de abril de 2025, após uma aeronave realizar pouso clandestino na zona rural de Santa Rita do Araguaia (GO). No interior do avião, foram encontrados 450 tabletes que totalizavam 470,8 quilos de cloridrato de cocaína. Os dois ocupantes da aeronave fugiram em direção a uma área de mata, mas foram localizados e presos em flagrante.

Com os pilotos, foram apreendidos aparelhos celulares, equipamentos de navegação aérea e manuscritos contendo coordenadas geográficas referentes à Bolívia. A análise de um GPS aeronáutico permitiu reconstruir a rota utilizada entre a região do Parque Nacional Isiboro Sécure (TIPNIS), na Bolívia, e o estado de Goiás.

Em setembro de 2025, os dois pilotos do avião - Cruz Orlando Garbon Alvarez, de nacionalidade venezuelana, e Jefferson Cajias Chavez, boliviano - foram condenados por tráfico internacional de entorpecentes. O processo está em fase de recurso no Tribunal Regional Federal da 1ª Região.

A partir das informações obtidas nos equipamentos e do cruzamento de dados bancários, fiscais e telemáticos, o MPF identificou uma estrutura criminosa permanente e organizada, com divisão de tarefas entre grupos responsáveis pelo transporte da droga, pelo financiamento das operações e pela ocultação de patrimônio.

Núcleos da estrutura criminosa

Segundo as denúncias, o primeiro núcleo era responsável pela logística aérea, incluindo a compra, o financiamento e a utilização das aeronaves empregadas no transporte internacional da cocaína. O avião apreendido havia sido adquirido por R$ 1,426 milhão, mas foi registrado em nome de terceiro para ocultar seus proprietários. Também foram identificadas outras aeronaves, pistas clandestinas, equipamentos de comunicação via satélite e pontos de apoio em Goiás, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Maranhão.

O segundo núcleo concentrava o financiamento das operações e a primeira etapa da lavagem de dinheiro. Conforme o MPF, a aquisição da aeronave foi viabilizada por pagamentos pulverizados entre pessoas físicas, empresas de fachada, contas de passagem e pessoas interpostas, dificultando o rastreamento da origem dos recursos. A investigação também identificou o uso de identidade falsa para a constituição de empresa utilizada na circulação dos valores.

O terceiro núcleo atuava na administração patrimonial e na blindagem de ativos. Empresas do setor de transportes eram utilizadas para concentrar movimentações financeiras, registrar bens e conferir aparência de legalidade ao patrimônio dos integrantes da estrutura. Durante as buscas, foram apreendidos documentos, aparelhos eletrônicos e dezenas de cheques de terceiros, que totalizavam aproximadamente R$ 557 mil e eram utilizados na movimentação financeira do grupo.

O quarto núcleo era dedicado à lavagem de dinheiro e estava dividido em quatro braços: contas de passagem e pessoas interpostas; aquisição e circulação de veículos de alto valor; empresas de construção civil e de fachada; e comércio de gás com simulação societária.

As investigações apontam que carros de luxo, imóveis e estruturas societárias eram utilizados para ocultar patrimônio e afastar os controladores da titularidade formal dos bens. Também foi identificado um esquema de concessão de crédito e desconto de cheques, descrito nas denúncias como um "banco paralelo", utilizado para dar liquidez às operações financeiras da estrutura criminosa.

Remessas por "dólar-cabo"

O MPF também identificou a utilização do sistema conhecido como "dólar-cabo" para a realização de remessas clandestinas de recursos à Bolívia, em quatro operações ocorridas entre março e abril de 2025.

Por esse mecanismo, valores depositados no Brasil eram disponibilizados no exterior sem passar pelos canais oficiais de câmbio. Segundo as denúncias, os recursos eram utilizados para custear pilotos, abastecimento e manutenção de aeronaves.

Suspeita de simulação de morte

Outro desdobramento da investigação envolve Arnaldo Agostinho Sottani, apontado nas denúncias como comprador e financiador oculto do avião usado pela estrutura criminosa. Ele desapareceu em novembro de 2025, e familiares informaram que ele teria morrido num acidente aéreo.

A investigação, entretanto, não localizou registros oficiais do voo, destroços, corpo ou outros elementos que confirmassem o suposto acidente. Dias antes do desaparecimento, o investigado havia outorgado procuração com amplos poderes para a administração e a transferência de seus bens.

Diante das circunstâncias, o MPF passou a investigar a hipótese de simulação da própria morte, requereu a prisão preventiva e a inclusão do nome do investigado na Difusão Vermelha da Interpol.

Investigação continua

A fase ostensiva da Operação Rota Andina foi deflagrada em 12 de maio de 2026, com o cumprimento de mandados de prisão, busca e apreensão e bloqueio de bens em Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Amazonas, Rio Grande do Norte, Maranhão e Distrito Federal.

Durante as diligências, foram apreendidos aparelhos celulares, computadores, documentos, dinheiro, joias, relógios e veículos de alto valor.

Ainda estão em andamento perícias em equipamentos eletrônicos, avaliações patrimoniais, cruzamentos de informações bancárias, fiscais e contábeis e outras diligências que poderão identificar novos envolvidos e revelar infrações penais ainda não abrangidas pelas denúncias oferecidas.

Com o surgimento de novos elementos, o MPF poderá apresentar novas denúncias, promover aditamentos às acusações já formuladas ou adotar outras medidas nos próximos desdobramentos da Operação Rota Andina.

As denúncias já apresentadas serão analisadas pela Justiça Federal. Aos denunciados são assegurados o contraditório, a ampla defesa e a presunção de inocência.

D24am


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