ALEX SILVA/ESTADÃO CONTEÚDO/AE/
A PF (Polícia Federal) investiga Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em três inquéritos. As apurações miram o suposto tráfico de influência e corrupção em prol de empresas junto ao governo federal.
As investigações foram autorizadas pelo STF (Supremo Tribunal Federal) a partir do fim de julho. O ministro André Mendonça é o relator de duas delas e o ministro Flávio Dino, da terceira. O filho do presidente nega irregularidades na sua atuação.
Lulinha entrou na mira das investigações depois de revelada a sua proximidade com a lobista Roberta Luchsinger, que foi, em dezembro do ano passado, alvo da Operação Sem Desconto, que apura fraudes em benefícios do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).
A empresária teve o celular apreendido pela PF. No aparelho foram encontradas mensagens que indicaram negócios entre ela e Antônio Carlos Camilo Antunes, o "Careca do INSS", apontado como um dos principais operadores do esquema de descontos ilegais nos benefícios de aposentados.
Segundo relatórios da PF, a empresária teria trabalhado para o "Careca do INSS", sendo uma possível operadora financeira e política do esquema de fraudes.
O possível envolvimento do filho do presidente passou a ser questionado após a revelação de uma viagem a Portugal que Lulinha fez ao lado de Antunes e que teria sido custeada pelo lobista.
O filho do petista justificou que a viagem serviu para avaliar negócios na área da cannabis medicinal. É justamente sobre esse tema que o Lulinha é investigado. Uma das suspeitas, conforme relatório da PF, é que o filho do presidente seja um sócio oculto de Antunes.
Roberta foi interrogada pela PF em maio deste ano em uma tentativa de esclarecer sua conexão com Antunes e Lulinha. Ela admitiu ter apresentado o filho do presidente ao lobista e, através de sua defesa, repetiu a tese de que a viagem a Portugal se tratava de uma busca por negócios.
1° inquérito
O primeiro inquérito contra Lulinha apura a suspeita de que ele teria favorecido a empresa do "Careca do INSS", que atua com produtos medicinais à base de cannabis, junto ao Ministério da Saúde, facilitando contratos com o governo federal.
A PF pediu a abertura da investigação em 24 de julho. O pedido foi acatado pelo ministro André Mendonça, do STF, que determinou a abertura da investigação em 30 de julho.
Mendonça também é relator do inquérito sobre os desvios do INSS, caso em que também há menção a Lulinha, apesar de ele não ser formalmente investigado.
Ao STF, a defesa de Lulinha disse que ele conheceu Antunes por meio da amiga Roberta Luchsinger, em 2024. O filho do presidente negou que tinha conhecimento do esquema de fraudes no INSS.
2° inquérito
Uma outra investigação também foi autorizada por Mendonça, no dia seguinte à abertura do primeiro inquérito.
A PF apura se Lulinha teria atuado para beneficiar uma empresa de tecnologia da informação junto à Dataprev (Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência), órgão do governo federal. A Dataprev negou à CNN ter acordos com a companhia citada.
A Polícia Federal quer entender se Lulinha atuou para beneficiar, junto à Dataprev, a empresa 3Structure It LTDA, que trabalha na área de tecnologia e que tem contratos de R$ 55.721.051,62 com o governo federal.
Os investigadores suspeitam que um empresário do setor de tecnologia tenha atuado Lulinha, o "Careca do INSS", e Roberta Luchsinger, na tentativa de firmar contratos do governo federal.
À CNN, a 3Structure informou que "sagrou-se vencedora em certames realizados em estrito cumprimento das normas aplicáveis às contratações públicas, passando, inclusive, por auditorias do TCU ".
Segundo a empresa, "todos os contratos celebrados com os órgãos públicos foram firmados com transparência, dentro da mais absoluta legalidade, sem a intermediação de quem quer que seja e após os processos licitatórios previstos em lei".
3° inquérito
O terceiro inquérito está sob sigilo e apura a suposta atuação de um grupo de pessoas em prol de favorecimento de empresas junto ao governo federal. O ministro Flávio Dino autorizou a abertura da investigação em 4 de agosto.
A investigação atinge o Palácio do Planalto, porque mira o então chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola. A PF aponta elo entre ele, Roberta e Lulinha, com pagamentos de contas e compras de joias para ele.
Marcola exerceu o cargo no gabinete de Lula desde o início do atual governo e deixou o posto no dia 21 de julho deste ano.
Como a CNN mostrou, mensagens trocadas entre Lulinha e Roberta indicaram a realização de reuniões de negócios com Marcola e com o então secretário-executivo da pasta, Swedenberger Barbosa, conhecido como Berger.
Em uma das frentes de apuração, a corporação encontrou uma conversa em que Marcola teria recebido de Luchsinger o modelo de um contrato, sem necessidade de licitação, com o Ministério da Saúde. A polícia também encontrou uma mensagem que aponta que Luchsinger comprou joias de diamante para Marcola avaliadas em R$ 9,2 mil.
Veja a linha do tempo das investigações:
18 de dezembro de 2025: lobista Roberta Luchsinger é alvo de nova fase da Operação Sem Desconto;
30 de julho de 2026: ministro André Mendonça autoriza abertura do 1° inquérito por tráfico de influência e corrupção envolvendo o Ministério da Saúde e a comercialização de cannabis medicinal;
31 de julho de 2026: Mendonça autoriza o 2° inquérito que mira o eventual tráfico de influência em benefício de empresas em contratos com a Dataprev, empresa de tecnologia do governo federal;
4 de agosto de 2026: ministro Flávio Dino autoriza a abertura do 3° inquérito para investigar a atuação de um grupo.
Próximos passos
Como a CNN mostrou, a PF só deve concluir só no fim do ano a investigação envolvendo Lulinha e Marcola. A corporação ainda avalia se haverá necessidade de marcar depoimentos.
A PGR (Procuradoria-Geral da República) pediu a Mendonça o envio da investigação contra Lulinha para a primeira instância. A manifestação do procurador-geral, Paulo Gonet, que está em sigilo, foi enviada logo após o ministro autorizar a abertura das primeiras investigações. O ministro ainda não analisou o pedido feito pelo procurador-geral.
PF x Mendonça
Em janeiro, Mendonça autorizou a quebra de sigilo de Lulinha, apesar disso, como mostrou a CNN, a Polícia Federal levou mais de sete meses para enviar os dados ao ministro.
Entre os fatos que desagradaram o gabinete do ministro constam a troca da coordenação da PF responsável pela apuração do INSS e suposta demora em enviar o conteúdo da quebra de sigilos de Lulinha ao STF. A PF detalhou que seguiu o curso processual.
No inquérito sobre o caso do INSS, a PF ouviu Edson Claro, ex-funcionário do "Careca do INSS". Segundo ele, o filho do presidente recebia uma "mesada" de R$ 300 mil de Antunes. Por esse motivo, Mendonça autorizou a quebra de sigilo de Lulinha.
O ministro mandou a polícia enviar a seu gabinete os dados brutos do caso, ou seja, a íntegra das quebras. A Polícia Federal, no entanto, interpretou a decisão como uma invasão da autonomia investigativa da corporação. A PF chegou a acionar a Advocacia-Geral da União para estudar a apresentação de um recurso perante o STF para derrubar a ordem judicial, mas nenhuma medida jurídica foi concretizada.
Nesta semana, em prol do apaziguamento nas relações, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, teve reunião com o presidente do STF, Edson Fachin. O ministro também teve reunião na terça-feira (18) com Wellington César Lima e Silva, titular do MJ (Ministério da Justiça e Segurança Pública).
Como a CNN mostrou, a pasta tenta atuar como intermediadora do impasse com o Supremo, por ter a PF sob seu guarda-chuva. Além disso, o Ministério, através da sua Corregedoria, também abriu uma apuração sobre os vazamentos de mensagens relacionadas às investigações contra Lulinha, Roberta Luchsinger e Marcola.
Na quarta-feira (19), o presidente Lula se reuniu com o advogado de Lulinha, Marco Aurélio Carvalho, e ouviu da defesa do filho críticas sobre "vazamentos seletivos" das investigações. Em campanha à reeleição, o chefe do Executivo tem reforçado que seu filho deve prestar esclarecimentos.
Alvo da oposição
No Congresso Nacional, a oposição mirou Lulinha durante os trabalhos da CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) sobre as fraudes do INSS. No colegiado, o relator, deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), pediu o indiciamento do filho do presidente em seu relatório final, mas a comissão terminou as atividades sem aprovar um parecer final.
Antes, a CPMI também aprovou a quebra de sigilo de Lulinha, mas teve o acesso aos dados barrado por decisão de Dino.
Nesta quinta-feira (20), o senador Carlos Viana (PSD-MG), que presidiu a CPMI do INSS, começou a recolher assinaturas para a abertura de uma nova CPMI que mire a atuação de Lulinha. São necessárias as assinaturas de 27 senadores, 171 deputados e o aval do presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), para a comissão de inquérito avançar.
CNN Brasil