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DA HIPOCRISIA À DEVASSIDÃO

Pitágoras, o grande filósofo e matemático grego, diz: Se, o que tens a dizer, não é algo melhor que o silêncio, então convém que fique calado!


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Pois bem. Eu penso que posso dizer algo melhor que o silêncio!

Antes, devo salientar que existem pessoas — dentre as quais me incluo — que já absorveram um pouco mais sensibilidade espiritual, humanismo, princípios e compreensão da vida; que conseguem sobreviver, mas sofrem ao ver o país ser dilacerado pela corrupção; suas instituições desvirtuadas, desmoralizadas e inertes; assistem à organização do crime, enquanto a Nação agoniza diante do colapso ético-moral, enquanto a promiscuidade se estratifica.

Assim, estamos a viver o rito sádico da inversão de valores e princípios; o desvio de finalidade dos objetivos da gerência e atribuições da coisa pública; o definhamento mórbido da ética; a perda do respeito e dos objetivos sacros da justiça, que parece imantada de propósitos avessos aos seus fins e princípios! E, assim, propagam a iniquidade e levam o país à devassidão!

Ora, a bem dizer, nesse quadro — que seria patético se não fosse trágico — temos a ridicularização da virtude, diante da exaltação da torpeza! Com efeito, assistimos águias e pombos convivendo no mesmo terreiro.

Em consequência, formatou-se o labirinto de incerteza e iniquidade, onde as pessoas passaram a ver as coisas somente onde colocam suas paixões e seus interesses. Em consequência, não há mais compromisso para com a Pátria; se conformam com o tudo certo e é assim mesmo! Vamos pular o carnaval, assistir ao futebol, que um dia isso se resolve!

Tem-se um Congresso — que nos custa a joia da coroa — que é um faz de conta, que não tem poder nem competência de fato para se impor em nome do povo. O Executivo é a personificação da ruína, por consequência do efeito da causa que o posto que ocupa; e, assim, nos leva em uma nau sem destino!

Paradoxalmente, tem-se um Judiciário "sui generis" que governa, legisla, institui normas processuais, exerce poder de polícia, atribuições de Ministério Público: assim, a Nação tornou-se alvo de zombaria pelo mundo.

A nossa Constituição, no estridor da arrogância, soçobrou — e subsiste tal como um estatuto de sindicato —, em consequência, as garantias dos direitos fundamentais tornaram-se desprezíveis!

Vale enfatizar: nessa torpe vereda, a verdade é manipulada ao ponto de criar-se realidade a partir de uma ideia — malgrado a ideia é que se deve criar a partir da realidade.

Pois bem. Disso decorre o hábito de recortar a realidade em cada ato: por essa mentalidade tacanha, parte da sociedade está condicionada a enxergar somente aquilo que se enquadra em uma realidade conveniente!

Nessa perspectiva, mesmo as mentes que obtiveram certo conhecimento seguem o mesmo padrão de recorte da realidade; e depois propagam-na como matriz verdadeira. Isto é, são mentes que procuram enxergar só o que lhes convém!

Nesse contexto, vejo em nosso panorama algo semelhante ao imaginário descrito pelo poeta mexicano Otávio Paz em Labirinto da Solidão, em que elabora um paradigma de situação vivenciada por seu país, que vivenciou a desfaçatez!

Diz ele: quando Cristóvão Colombo chegou ao continente americano e ancorou suas caravelas, os indígenas não as enxergaram, embora estivessem ali, à sua frente: não enxergaram as caravelas! Isso porque eles não tinham cognição para a visualização cósmica da realidade; a realidade para eles era limitada ao quadro mental de sua cultura. Vale dizer, os índios, pela ignorância, não percebiam além do que conheciam.

O que vivemos hoje, em nosso país, contém muito dessa ignomínia: não se quer enxergar o óbvio; faz-se recorte da realidade por deficiência de cognição ou por conveniência de propósito e intenção. Em decorrência, denota-se certa semelhança deste corte da literatura com a perplexidade que vivemos.

Decerto que, pelo ultraje ao pudor, o nosso caso não é de inocência cultural. É vilania, mesmo.

Logo, a intolerância está chegando ao ponto de a pessoa sensata não poder emitir uma reflexão, falar a verdade, para não desagradar aos imbecis. Decorre disso a orfandade da Nação!

E nós, o povo, estamos como o personagem descrito por Dostoiévski, filósofo russo, no livro O Idiota: vive a contemplar a beleza do mundo, enxerga e sente todas as mazelas e nada faz. Mas é genuinamente bom, vive a pagar impostos pesados — em nosso caso, para sustentar a corrupção — e está tudo bem!

Por esse viés, o brasileiro não percebe que o lamento sem luta e o clamor sem reação levam à indolência e nada muda, nada se transforma.

Por isso que o medo não pode destruir a razão: e devemos lembrar que a tragédia não está na morte, mas naquilo que morre dentro de nós — a honra, a dignidade, a esperança!

Des. Eliseu Fernandes


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