Castigos físicos como palmadas e chineladas ainda são utilizados por algumas famílias brasileiras como forma de corrigir o comportamento de crianças. O alerta faz parte de uma pesquisa qualitativa realizada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) para entender por que essa prática continua presente no país.
O estudo ouviu mais de 200 pessoas, entre pais, mães, lideranças comunitárias e profissionais da rede de proteção. As entrevistas foram realizadas nas capitais do Rio de Janeiro, Amazonas e Pernambuco, com foco em famílias de crianças na primeira infância.
Segundo Luiza Teixeira, especialista de Proteção à Criança do Unicef no Brasil, um dos principais pontos identificados é a percepção de algumas famílias de que palmadas e outros castigos físicos não seriam considerados violência.
A pesquisa também apontou que parte dos responsáveis desconhece os efeitos negativos que a violência pode causar e não possui alternativas para lidar com situações de estresse e comportamentos considerados difíceis durante a criação dos filhos.
Comportamento infantil
Outro fator identificado pelo estudo é a falta de conhecimento sobre comportamentos naturais da primeira infância. De acordo com o Unicef, crianças de 0 a 6 anos passam por uma fase importante de desenvolvimento cerebral e cognitivo, o que pode provocar comportamentos que nem sempre são compreendidos pelos adultos.
A especialista explica que algumas famílias interpretam essas atitudes como provocação ou mau comportamento, quando elas podem estar relacionadas ao próprio processo de desenvolvimento infantil.
Violência e sobrecarga familiar
O estudo também relacionou o contexto de violência armada à maneira como alguns pais e responsáveis educam os filhos. Segundo o Unicef, em ambientes considerados inseguros, existe a percepção de que controlar as crianças de maneira rígida seria uma forma de protegê-las da violência externa.
A sobrecarga das mães também aparece entre os fatores analisados. Com grande parte das responsabilidades de cuidado concentrada nelas, o estresse provocado pela rotina e por dificuldades socioeconômicas pode contribuir para reações violentas diante de situações consideradas desafiadoras.
De acordo com a pesquisa, episódios de violência física costumam ser associados pelos participantes a momentos de cansaço, estresse e perda momentânea de controle.
Recomendações
Para enfrentar o problema, o Unicef recomenda que políticas voltadas à primeira infância incluam ações de orientação e apoio à parentalidade protetiva.
A organização também defende campanhas de comunicação que apresentem alternativas à violência e estejam próximas da realidade das famílias, principalmente aquelas em situação de maior vulnerabilidade.
Outra recomendação é ampliar a capacitação dos profissionais que integram a rede de proteção, para que consigam identificar situações de castigo corporal e orientar as famílias.
O Unicef também sugere fortalecer o contato com lideranças comunitárias e outros profissionais que sejam referências para as famílias, além de aumentar os investimentos em políticas públicas voltadas à primeira infância.
Assessoria