Erisson Soares
A estiagem faz parte do calendário amazônico, mas sua recorrência não torna aceitáveis os efeitos sobre quem depende do Madeira para beber, trabalhar e se deslocar. Em Porto Velho, a baixa das águas expõe uma questão que vai além do clima: a capacidade de prevenir crises e garantir serviços básicos às comunidades vulneráveis.
Nesta semana, o rio chegou a 2,62 metros, diante dos 3,9 metros esperados, segundo o SipamHidro, do Censipam. Em Bom Será, o abastecimento disponível não atende todas as famílias e, segundo a associação local, não fornece água potável. Uma necessidade básica fica sem resposta adequada.
Os prejuízos alcançam a produção rural. Uma agricultora passou quase quatro meses sem conseguir retirar bananas do bananal, e parte dos frutos se perdeu. Na comunidade Brasileira, moradores observam mudanças na paisagem, enquanto o trajeto até o transporte escolar exige caminhadas de quatro a cinco quilômetros. A estiagem interfere na renda, no acesso à educação e na vida local.
A prefeitura estima 22,9 mil pessoas afetadas em 85 localidades e decretou emergência por 180 dias. A medida permite buscar apoio estadual e federal e agilizar serviços e compras emergenciais. É um instrumento necessário, mas o decreto não entrega água nem resolve o transporte. Sua eficácia deve ser avaliada pela chegada da assistência, pela transparência dos gastos e pela prioridade aos mais vulneráveis. A população precisa saber quais medidas serão executadas, em que prazo e com quais recursos.
Há outros interesses legítimos em jogo. A navegação é importante para o transporte de cargas, mas bancos de areia e rochas elevam os riscos. A restrição noturna determinada pela Marinha responde a uma preocupação de segurança. A dragagem prevista pelo DNIT até novembro pode melhorar a passagem, mas exige avaliação técnica e ambiental e não deve ser tratada como solução única para uma crise de abastecimento e serviços.
A Defesa Civil apontou o El Niño como fator de agravamento neste ano. Ainda assim, atribuir a situação apenas ao clima seria insuficiente: a estiagem é recorrente, e essa previsibilidade exige planejamento, fontes seguras de água, rotas alternativas e protocolos claros de atendimento.
A resposta imediata é indispensável. Quando as águas subirem, porém, a discussão não deve terminar. Planejamento e prestação de contas precisam continuar. Para as comunidades ribeirinhas, enfrentar a seca não pode significar começar do zero a cada ano.
Diário da Amazônia