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A safra brasileira de trigo avança com desenvolvimento considerado satisfatório nas principais regiões produtoras, mas o cenário para o ciclo é marcado por uma combinação de fatores que tende a reduzir a oferta doméstica. A retração da área plantada, o menor investimento dos produtores na cultura, a perspectiva de maior dependência de importações e a possibilidade de um El Niño mais intenso compõem um quadro que mantém o mercado atento tanto ao volume quanto à qualidade da produção.
Segundo a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), 90,4% da área prevista já foi semeada.
Apesar do bom início da safra, as projeções indicam uma produção menor em relação ao ciclo anterior. A Conab estima uma colheita de 6,2 milhões de toneladas, cerca de 20% inferior à da safra passada, reflexo principalmente da redução de 13% da área cultivada e da expectativa de produtividade 8% menor.
Segundo análise da Consultoria Agro do Itaú BBA, assinada por Marina Marangon, a retração ocorre porque as margens da cultura continuam pouco atrativas ao produtor, estimulando a substituição do trigo por outras culturas de inverno, como cevada e canola, além da adoção de um pacote tecnológico mais conservador para reduzir custos.
Esse movimento também aparece nos principais Estados produtores. No Rio Grande do Sul, a Emater/RS-Ascar projeta área de 814,2 mil hectares, redução de 30,2% em relação a 2025. A semeadura gaúcha alcançou 87% da área prevista.
No estado vizinho, Paraná, o cultivo já chegou a 98% da área prevista, segundo o Deral (Departamento de Economia Rural), e também registra nova redução de área cultivada. A superfície atual representa praticamente metade da registrada em 2023, quando foram plantados 1,39 milhão de hectares. Mesmo assim, permanece a expectativa de uma safra de 2,4 milhões de toneladas, desde que as condições climáticas permaneçam favoráveis durante o inverno.
Nos dois estados o plantio foi prejudicado pelo excesso de umidade, que retardou os trabalhos no campo e dificultou aplicações de fertilizantes e defensivos. Ainda assim, as entidades afirmam que as lavouras apresentam estandes adequados, desenvolvimento compatível com a época e poucos danos causados pelas geadas registradas até agora. No entanto, pode haver uma maior pressão de doenças fúngicas.
El Niño
Embora as condições iniciais sejam consideradas positivas, o principal fator de incerteza para a safra está no comportamento do clima ao longo dos próximos meses.
O Deral destaca a preocupação dos produtores com a possibilidade de intensificação do El Niño para um evento classificado como "muito forte". Caso isso ocorra, as chuvas acima da média no Sul do Brasil poderão coincidir com a fase de colheita, comprometendo a qualidade dos grãos. Segundo o departamento, grãos afetados pelo excesso de chuva tendem a perder qualidade e podem ser rejeitados pela indústria de moagem, obrigando os moinhos a ampliar as compras em outras regiões ou no mercado externo.
A avaliação do Itaú BBA segue na mesma direção. "Apesar das boas condições iniciais, o El Niño eleva o risco para o trigo principalmente via excesso de chuva no Sul do Brasil, que tende a ocorrer justamente nas fases mais sensíveis do ciclo", afirma a análise da instituição.
O avanço do El Niño aumenta a probabilidade de perdas de produtividade e, principalmente, de qualidade. O excesso de umidade favorece doenças fúngicas, como a giberela, considerada uma das principais ameaças ao trigo, além de elevar o risco de germinação dos grãos ainda na espiga, redução do peso hectolitro e deterioração da qualidade industrial.
Nas regiões de sequeiro do Centro-Oeste e Sudeste, por outro lado, o fenômeno pode provocar efeito inverso, com temperaturas mais elevadas e déficit hídrico durante fases críticas do desenvolvimento da cultura, reduzindo o enchimento dos grãos e pressionando a produtividade.
Alta de importações
A menor produção prevista reforça a necessidade de importação para atender ao consumo interno. Segundo a Conab, a expectativa é de importações de aproximadamente 6,8 milhões de toneladas nesta safra. Já o USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), em relatório divulgado na sexta-feira (10), manteve a estimativa de produção brasileira em 6,7 milhões de toneladas e projetou importações de 7,2 milhões de toneladas.
"O volume importado estimado é superior à própria produção interna esperada para a safra", destacou o Itaú BBA. A principal origem do cereal importado deve continuar sendo a Argentina.
Esse cenário ocorre em um momento em que a própria Argentina também deve produzir menos em relação ao ciclo anterior. Segundo o Itaú BBA, o país vizinho entra na temporada após uma safra elevada, mas com expectativa de redução de área cultivada e retorno das produtividades para níveis mais próximos da média histórica, diminuindo parte da folga regional na oferta.
Oferta e qualidade
A perspectiva de menor disponibilidade de trigo também preocupa a indústria moageira. Na avaliação do Itaú BBA, o mercado doméstico tende a operar mais próximo da paridade de importação, tornando-se mais sensível às oscilações cambiais, aos custos logísticos e à disponibilidade de trigo de qualidade. Caso o El Niño comprometa parte da produção nacional destinada à panificação, os moinhos poderão ampliar a necessidade de blends ou de importações de trigo de melhor padrão.
Ao mesmo tempo, a consultoria observa que a capacidade de repasse dos custos da matéria-prima para a farinha continua limitada por uma demanda considerada mais cautelosa, enquanto o farelo de trigo permanece pressionado pela competitividade do milho. Ainda assim, a instituição avalia que as margens da moagem permanecem acima da média histórica, embora a gestão comercial deva ganhar importância diante de um ambiente mais volátil.
"A margem atual não aponta uma situação crítica, mas reforça a importância da gestão comercial, uma vez que o desafio dos moinhos será preservar margens em um cenário potencialmente mais volátil e de maior disputa por trigo de qualidade", diz o relatório.
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