Porto Velho (RO)30 de Julho de 202618:14:47
EDIÇÃO IMPRESSA
Mundo

Guerra do Paraguai: o que Lula disse e por que paraguaios se irritaram

Declaração de Lula sobre Guerra da Tríplice Aliança provoca reação oficial do Paraguai e expõe disputa histórica que segue viva


Imagem de Capa

Carla Sena/Arte Metrópoles

PUBLICIDADE

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) provocou uma crise diplomática com o Paraguai ao afirmar que o país vizinho "resolveu invadir o Brasil" durante a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870), mais conhecida no Brasil como Guerra do Paraguai.

A declaração, feita na última semana, desencadeou uma onda de críticas em Assunção, levou o Congresso paraguaio a aprovar moções de repúdio e motivou a convocação do embaixador brasileiro para receber uma nota oficial de protesto.

O entrevero começou após uma fala do líder brasileiro durante uma visita à fabricante de equipamentos militares Avibras, em Jacareí (SP), enquanto defendia investimentos na indústria de defesa brasileira.

"A gente gosta de paz, mas a gente não pode se esquecer que um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá, ao mesmo tempo invadiu o Uruguai, invadiu a Argentina. E aquela guerra que parecia que era nada durou cinco anos", afirmou o presidente.

Nesta quinta-feira (30/7), o cenário escalou ainda mais, após o chanceler Rubén Ramírez Lezcano informar que Peña conversou por telefone com Lula sobre o episódio.

Além disso, revelou que o embaixador brasileiro em Assunção, José Antônio Marcondes de Carvalho, foi convocado para receber uma nota oficial de protesto do governo paraguaio.

Entenda o conflito

A Guerra da Tríplice Aliança, também conhecida como Guerra do Paraguai, foi o maior conflito armado da história da América do Sul.

Seu estopim foi a intervenção militar do Império do Brasil na guerra civil uruguaia, movimento interpretado pelo governo de Francisco Solano López como uma ameaça ao equilíbrio de poder na Bacia do Prata.

Em resposta, o Paraguai declarou guerra ao Brasil e posteriormente entrou em conflito também com Argentina e Uruguai, que formaram a Tríplice Aliança.

O conflito terminou em 1870, após cinco anos de combates, deixando o Paraguai devastado territorial, econômica e demograficamente.

Estimativas paraguaias apontam que cerca de 70% da população do país morreu durante a guerra, tornando o episódio um dos maiores traumas da identidade nacional.

A repercussão foi praticamente unânime no Paraguai. A Câmara dos Deputados aprovou uma declaração oficial afirmando que Lula "distorce e minimiza" a dimensão histórica da guerra e ignora "a complexidade dos antecedentes do conflito e o profundo sofrimento humano suportado pelo povo paraguaio".

O presidente da Câmara, Raúl Latorre, acusou o petista de tratar "com leviandade da maior tragédia" da história do país.

Memória histórica ainda aberta

Ao Metrópoles, o cientista político Gustavo Menon afirma que a indignação vai além de uma divergência sobre fatos históricos.

"A fala de Lula foi recebida com indignação porque toca em uma ferida histórica profunda da memória paraguaia. Ao afirmar que o Paraguai decidiu invadir o Brasil, passa a ideia de que houve uma ação unilateral, o que foi entendido pelas autoridades paraguaias como uma distorção da história e uma minimização do sofrimento vivido pelo país", explica.

Segundo Menon, para os paraguaios, a Guerra da Tríplice Aliança representa muito mais do que um episódio militar. "Ela é vista como uma catástrofe nacional, marcada por perdas humanas massivas, devastação econômica, ocupação e um trauma coletivo que permanece vivo até hoje."

O especialista ressalta ainda que diversos historiadores apontam fatores anteriores ao conflito, como a intervenção brasileira no Uruguai e as disputas geopolíticas na Bacia do Prata, como elementos fundamentais para compreender o início da guerra.

"Meias-verdades"

O historiador Victor Missiato, docente do Mackenzie Alphaville e especialista em América Latina, afirma que Lula misturou um fato histórico com uma interpretação incompleta do conflito.

"Do ponto de vista histórico, o presidente Lula falou meias-verdades. De fato houve a invasão do Paraguai, que dá início à guerra. Mas também havia interesses do Brasil e da Argentina em conter o avanço do Paraguai na Bacia do Prata", afirma.

Segundo ele, a intervenção brasileira no Uruguai alterou o equilíbrio regional e influenciou diretamente a decisão de Solano López de iniciar as ofensivas militares.

Missiato também acredita que a crise ficará restrita ao campo diplomático. "Diante da intensa dependência econômica entre Brasil e Paraguai, do Mercosul e dos acordos de Itaipu, vejo esse episódio mais como um incidente diplomático do que como algo capaz de gerar consequências econômicas ou geopolíticas relevantes."

Metrópoles


NOTÍCIAS RELACIONADAS

Últimas notícias de Mundo