Arquivo pessoal
Às 5h56 de 14 de dezembro, um carro passou por uma praça de pedágio da MG-050 em Itaúna, no Centro-Oeste de Minas Gerais. No banco do motorista, estava Henay Rosa Gonçalves Amorim, de 41 anos, com o companheiro, de 43, no banco do carona. Minutos depois, ela teria a morte notificada pelas autoridades por acidente de trânsito. No entanto, era tudo uma farsa, tramada pelo homem, que dirigia o veículo com a mulher morta, para ocultar um feminicídio.
A vítima já estava morta havia pelo menos uma hora antes de passar pelo pedágio. Segundo a Polícia Civil, Henay foi assassinada por asfixia dentro do apartamento onde vivia com o companheiro, no bairro Nova Suíça, na região Oeste de Belo Horizonte. De lá, o corpo foi levado até o carro, colocado no banco do motorista e transportado por mais de 60 km até Itaúna. As conclusões foram apresentadas nesta sexta-feira (23/1), após o encerramento das investigações.
Preso durante o velório de Henay, o suspeito foi indiciado por feminicídio qualificado, por asfixia e recurso que teria impossibilitado a defesa da vítima, e por fraude processual, por adulterar a cena do crime e simular um acidente automobilístico para tentar sustentar a versão de morte acidental.
Pedágio virou peça-chave para desmontar a farsa
O caso, inicialmente tratado como acidente, começou a mudar de rumo com informações repassadas por familiares da vítima e, principalmente, pelo relato de uma funcionária do pedágio por onde o veículo passou pouco antes da colisão.
A atendente contou que viu a mulher desacordada no banco do motorista, sem reação, enquanto o companheiro conduzia o carro a partir do banco do passageiro. Segundo a Polícia Civil, ele estava nervoso, tinha lesões aparentes, recusou qualquer tipo de ajuda e deixou o local rapidamente.
A partir disso, a Polícia Civil abriu procedimento investigativo, reuniu imagens, ouviu testemunhas e solicitou perícias. O que parecia ser uma tragédia no trânsito passou a ser tratado como feminicídio.
Vítima foi assassinada em Belo Horizonte
De acordo com a Polícia Civil, tudo começou no dia 13, no apartamento do casal. Conforme a investigação, houve discussões e agressões. Na madrugada do dia 14, o suspeito teria asfixiado Henay por constrição cervical externa e também provocado traumatismo no rosto e na cabeça da vítima.
As imagens de segurança do condomínio foram decisivas para reconstituir o que ocorreu em seguida. A Polícia Civil afirma que, às 4h49, o investigado foi filmado descendo até a garagem carregando o corpo da mulher. Em seguida, ele coloca Henay no banco do motorista. Nas gravações, é possível ver as mãos dela inertes.
Um detalhe destacado pelos policiais é que o suspeito era síndico do condomínio e, por isso, tinha acesso ao sistema de câmeras, às gravações e ao posicionamento dos equipamentos. Segundo a corporação, havia pontos cegos no local, e ele tinha conhecimento disso.
Após colocar o corpo no veículo, ele ainda voltou ao apartamento e retornou carregando um colchão. A Polícia Civil levantou a hipótese de que o colchão possa ter sido usado no momento do crime e poderia conter vestígios. Ele aparece manipulando o material e, depois, descartando o objeto. O local onde esse colchão foi deixado não foi identificado.
"Direção" do banco do passageiro
Ainda segundo a investigação, o homem entrou no banco do passageiro e passou a conduzir o carro nessa posição, acionando freio e acelerador com um dos pés e manipulando o volante com uma das mãos.
Câmeras de prédios vizinhos também registraram a saída do veículo. A Polícia Civil afirma que, mesmo com a dificuldade de visualizar o interior do automóvel, que tinha insufilm, inclusive no vidro dianteiro, foi possível identificar que a janela do passageiro estava aberta e que era o suspeito quem dirigia.
Aquela posição, dizem os investigadores, permaneceu desde a saída de Belo Horizonte até o pedágio em Itaúna.
Às 5h56, o carro passa pela praça de pedágio. A polícia afirma que Henay já estava morta naquele momento. Entre os sinais apontados, estão a falta de controle cefálico e a ausência de reações.
Acidente intencional para ocultar feminicídio
A Polícia Civil sustenta que, pouco depois do pedágio, o suspeito provocou propositalmente um acidente. Segundo a investigação, cerca de dez minutos após passar pela praça de Itaúna, no km 90 da MG-050, ele teria lançado o carro na contramão e batido com um ônibus, para sustentar a versão de acidente e ocultar o feminicídio.
Os laudos médico-legais foram determinantes para desmontar a versão de acidente de trânsito como causa da morte. A necropsia apontou asfixia por constrição cervical externa, com sinais de esganadura, associada a traumatismo cranioencefálico, descartando que o óbito tenha sido provocado apenas pela batida.
A Polícia Civil diz ter "certeza absoluta" de que o crime ocorreu no interior do apartamento. No imóvel, a perícia encontrou sangue no sofá, no chão, na porta e na maçaneta. O material foi identificado como sendo da vítima.
Outro elemento citado pelos investigadores foi um exame de comparação genética feito a partir do material encontrado sob as unhas de Henay. O resultado, conforme a Polícia Civil, apontou que o DNA era do suspeito.
Para a instituição, isso reforça a hipótese de que a vítima tentou se defender e pode explicar lesões nos braços do investigado, interpretadas como marcas decorrentes da resistência durante a asfixia.
Segundo a Polícia Civil, após o acidente o investigado retornou ao hospital e, em seguida, ao apartamento. No local, ele teria desconectado uma câmera interna e limpado vestígios.
A câmera não foi recuperada, e o suspeito não teria informado onde a descartou, mas, de acordo com os policiais, o equipamento enviava quadros ("frames") para o celular dele, o que permitiu recuperar parte das imagens.
A investigação também encontrou pesquisas feitas pelo suspeito após o acidente. De acordo com os investigadores, ele buscou conteúdos sobre acidentes automobilísticos com vítima fatal e chegou a baixar arquivos ligados à medicina legal, com foco em fenômenos imediatos da morte relacionados à asfixia.
Histórico de agressões
A investigação também identificou histórico de violência doméstica. A Polícia Civil afirmou ter recuperado imagens registradas em 17 de agosto do ano passado que mostram o suspeito agredindo Henay.
Conforme relatado pelos investigadores, nessas imagens o homem empurra a vítima sobre o sofá, deita sobre ela e passa a desferir socos na cabeça. Depois, aplica um golpe descrito pelos policiais como "mata-leão".
A vítima foi atendida em uma unidade médica em Belo Horizonte. A Polícia Civil afirma que conseguiu recuperar os prontuários e que foi feito um exame de corpo de delito indireto, com constatação de traumatismo cranioencefálico leve e hematomas, além de sintomas como náuseas e cefaleia.
A instituição também relatou que, naquele episódio, Henay trocou mensagens com o suspeito e com amigos. Segundo a polícia, ela afirmou que nunca apanhou tanto, que nunca havia levado tantos socos na cabeça e que tinha medo de morrer.
As investigações foram conduzidas pela equipe da Delegacia de Polícia Civil em Itaúna, com apoio da Agência de Inteligência do 7º Departamento e do Departamento Estadual de Investigação de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) em Belo Horizonte, responsável pelos levantamentos no apartamento do casal.
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