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A violência contra a mulher não é brincadeira, não é justificativa e não pode ser normalizada. A partir de vídeos que viralizam nas redes sociais, o Ministério Público de Rondônia (MPRO) reforça as ações de enfrentamento à violência de gênero.
Na internet, bastou um vídeo acompanhado da frase "quando ela diz não" para ganhar milhões de visualizações. As imagens associam a rejeição de uma mulher a cenas de agressão física. À primeira vista, parece apenas uma brincadeira, mas a trend polêmica passou a chamar a atenção do comportamento de jovens no ambiente digital.
Um desafio que reforça a importância das instituições na prevenção, orientação e proteção das vítimas. Mas, afinal, o que está por trás desse tipo de conteúdo, que pode contribuir para a naturalização da violência contra a mulher?
É nesse contexto que surge o chamado movimento "Red Pill". Uma expressão em inglês, que significa "Pílula Vermelha".
Segundo o psicólogo Matheus Augusto, a "machoesfera" é um termo que abriga diferentes correntes de pensamento sobre masculinidade. "Red pill, por exemplo, ele vem da questão do filme", explica, referindo-se a discursos que, segundo ele, podem transformar homens em "vítimas deste sistema".
Nos últimos anos, comunidades virtuais passaram a reunir discursos sobre masculinidade em relação ao comportamento feminino. O problema, segundo especialistas, aparece quando ideias são transformadas em discursos de ódio. E quando esse conteúdo encontra um público jovem, aquilo que começa como meme pode ajudar a tornar aceitável o que deveria provocar indignação.
Números da violência em Rondônia
Entre as ações institucionais, a plataforma Mapa da Violência Doméstica em Rondônia ajuda a mostrar a realidade no estado. Só neste período de 2026, já foram registradas mais de 5 mil ocorrências, quase o total do ano passado, com 6.496 casos.
Os indicativos acompanham a taxa de feminicídio de Rondônia, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que apontou 2,9 mortes para cada 100 mil mulheres, ficando atrás do estado do Acre. Entre 2021 e 2025, o índice cresceu mais de 50%.
Os números auxiliam o Ministério Público a identificar onde a proteção precisa ser fortalecida, quais ações de prevenção devem avançar e como evitar que novas vítimas entrem para essas estatísticas.
Ações institucionais
A promotora de Justiça Tânia Garcia, do MPRO, destaca que é garantido constitucionalmente o direito a uma vida digna "para todos e todas". Ela afirma que a instituição desenvolve diversas ações no contexto de violência de gênero e que, externamente, o órgão está cada vez mais oferecendo atendimento "com base no respeito e na igualdade".
Em abril deste ano, o MP de Rondônia promoveu uma ação voltada à proteção no ambiente digital, com orientações sobre cyberbullying e prevenção da violência nas escolas. A iniciativa reuniu estudantes a partir dos 13 anos e levou o debate sobre segurança e respeito para dentro das salas de aula.
"O grupo de Direitos Humanos tem um projeto", afirma Tânia Garcia, acrescentando que a instituição tem intensificado esse diálogo.
Investigação e rede de proteção
Prevenir e enfrentar a violência são tão necessários que esse debate também chegou ao Ministério Público Federal. Em março deste ano, o órgão abriu uma investigação para apurar a disseminação da trend "quando ela diz não".
O caso estimulou ainda mais o combate à prática de banalização da violência no ambiente digital. Em Rondônia, o trabalho passa pelo fortalecimento da rede de proteção e pelo diálogo entre as instituições, a exemplo do incentivo à adesão ao Canal Ligue 180.
O Ministério Público de Rondônia contribui nesse diálogo, junto com a Secretaria de Estado da Segurança, Defesa e Cidadania. O que torna mais eficiente o caminho entre a denúncia e o atendimento.
Para a procuradora de Justiça do MPRO, Emília Oiye, o Ligue 180 é um canal muito importante. "Quanto mais órgãos, mais portas terão para procurar ajuda", afirma.
Na prática, integrar os sistemas significa transformar uma denúncia em caminho rápido no atendimento. O secretário da Sesdec/RO, José Hélio Cysneiros Pachá, explica que o acordo de cooperação "busca fortalecer a integração com a rede estadual".
Prevenção que começa em casa e nas telas
Enquanto as instituições buscam fortalecer essas iniciativas, os índices apontam o motivo do seu funcionamento. Principalmente porque a violência doméstica e os feminicídios ainda fazem parte da realidade de muitas mulheres. E a prevenção precisa ir além da segurança e da Justiça, começando em casa, nas escolas e também nas telas.
O psicólogo Matheus Augusto defende que é preciso, "primeiro de tudo, criar espaço" para discutir como a pessoa encara a rejeição, "coisas deste tipo".
A promotora Tânia Garcia reforça que o Ministério Público atua "para um enfrentamento integrado".
Um vídeo pode durar poucos segundos, mas a mensagem pode permanecer por muito mais tempo. Assim, combater a violência contra a mulher também significa orientar dentro e fora das telas, agindo antes que uma história de violência se transforme em mais uma estatística.
Jackson Vicente - Portal SGC