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A divulgação dos resultados preliminares da pesquisa brasileira com polilaminina, para o tratamento de lesão medular, tem causado grande repercussão nas redes sociais. Vídeos de pacientes em recuperação motivaram uma enxurrada de comentários pedindo que a cientista Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) ganhe o próximo Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina.
Quando uma pesquisa científica no campo da medicina demonstra avanços importantes, especialmente para doenças e condições ainda sem tratamentos eficazes para levar à cura, é comum que haja uma comoção social. Esse efeito é motivado pela esperança.
Foi assim com o lançamento das primeiras vacinas contra a Covid-19, com a divulgação de estudos sobre possíveis tratamentos para curar o Alzheimer, o HIV e o câncer com células CAR-T, e agora acontece com a pesquisa com polilaminina.
Mas, especialistas ouvidas pelo Metrópoles explicam que o caminho para o Nobel é longo e sinuoso. Embora os resultados preliminares sejam animadores e a repercussão sobre o assunto seja grande, ainda é precoce afirmar que a polilaminina se tornará um tratamento efetivo.
A pesquisa de Tatiana ainda encontra-se em fase muito inicial e mais estudos precisam ser feitos para comprovar a eficácia do método, para só então existir a possibilidade de uma indicação ao prêmio.
A pesquisadora Debora Foguel, professora titular do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis da UFRJ e membro da Academia Brasileira de Ciência (ABC), lembra que "nunca se deu um Nobel para uma pesquisa em construção".
"Para concorrer ao Nobel, os feitos científicos precisam estar muito amadurecidos e ainda não é o caso da pesquisa da professora Tatiana", comenta.
Fase 1 de estudo
A polilaminina é um composto desenvolvido a partir da laminina, uma proteína presente naturalmente no organismo humano e envolvida na organização dos tecidos e no crescimento celular.
O medicamento experimental foi criado com foco na recuperação de lesões da medula espinhal. Em modelos experimentais, a molécula mostrou capacidade de favorecer o crescimento de axônios, as "pontes" de comunicação entre neurônios, e de reduzir processos inflamatórios no tecido lesionado, gerando recuperação parcial de funções motoras em animais.
Embora a professora Tatiana Sampaio estude a polilaminina há duas décadas, a pesquisa sobre os efeitos da molécula em um medicamento para humanos ainda está em fase inicial.
Nos testes preliminares, ela conseguiu bons resultados em ratos, cachorros e em um pequeno grupo de pessoas — com seis dos oito voluntários apresentaram evolução. Os resultados motivaram a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a aprovar, em janeiro deste ano, o início do estudo clínico de fase 1, que vai avaliar a segurança da polilaminina em um grupo pequeno de pacientes com lesão aguda.
Debora explica que, até que o medicamento se torne uma realidade, é preciso que a segurança e eficácia dele seja comprovada em testes com grandes grupos de pacientes, avaliando diferentes perfis populacionais, por anos. No caso de lesão medular, isso é ainda mais complexo, porque as lesões variam muito de um indivíduo para outro.
Depois disso, os resultados ainda precisam ser avaliados por outros cientistas — processo conhecido como revisão por pares — para a publicação em revista científica.
"O tema é merecedor de atenção, sim, mas agora estamos em testes e em construção. É um processo que pode tomar 15, 20 anos. Isso é o curso natural, são etapas que a ciência passa e precisa passar", explica Debora.
Por que um tratamento de lesão medular é relevante?
A lesão na medula espinhal, também chamada de lesão medular, acontece quando a medula espinhal sofre algum dano ou lesão, fazendo com que a comunicação entre cérebro e corpo fique prejudicada.
Ela pode acontecer quando o paciente sofre algum tipo de trauma, como queda ou acidente, que acaba por lesionar a medula espinhal. Nesses casos, o paciente pode ficar impossibilitado de movimentar os membros inferiores (paraplegia) ou de se movimentar do pescoço para baixo (tetraplegia).
Cerca de 10 a 30% dos pacientes com lesão medular aguda recuperam parcialmente o movimento com acompanhamento multidisciplinar e fisioterapia, podendo voltar a ter alguma sensibilidade à dor, temperatura, tato e movimento e controle dos esfíncteres para urinar.
Ainda não está comprovado se os pacientes que voltaram a ter movimentos depois de tomar a polilaminina tiveram avanços por causa da medicação ou eles aconteceram de forma espontânea. Apenas a pesquisa científica com grupos amplos e de longo prazo podem mostrar se a substância pode ter um papel central no tratamento de pessoas com lesão medular.
Caso os benefícios sejam comprovados, o cenário se transformará. Ter um medicamento que possibilite a esses pacientes voltar a andar pode mudar completamente como a medicina trata a condição.
Como é feita a indicação ao Nobel de Medicina
O Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina reconhece descobertas científicas de grande impacto para a humanidade na área biomédica. A indicação não leva em consideração popularidade, volume de publicações ou tempo de carreira dos pesquisadores.
As indicações devem ser enviadas até 31 de janeiro do ano da premiação. O processo é fechado e restrito a especialistas convidados pelo Comitê Nobel, ligado ao Karolinska Institutet, na Suécia.
Podem indicar candidatos professores titulares de medicina de universidades selecionadas, membros de academias científicas, laureados anteriores do Nobel e integrantes do próprio comitê. A autoindicação é proibida. Não são aceitas inscrições públicas nem candidaturas espontâneas.
A pesquisadora Alicia Kowaltowski, professora da USP e membro da ABC, destaca que os trabalhos laureados com o Nobel têm em comum o rigor, a importância e o impacto duradouro sobre outras áreas da ciência.
"Para cada vencedor do Nobel, há pelo menos uma centena de cientistas que fizeram descobertas extraordinárias e não receberam o prêmio. Não existe Nobel para todos, mas ter ou não um prêmio não define a relevância de um pesquisador. Tenho convicção de que é possível fazer contribuições profundas para a ciência sem que isso esteja associado a um prêmio", afirma.
Riscos da pressão popular
Apesar da torcida popular, as pesquisadoras ouvidas pelo Metrópoles afirmam que é preciso ter calma para não tornar o discurso inflamado.
"Tenho visto várias postagens falando que a Tatiana merece o Prêmio Nobel. Se por um lado é legal ver que estão valorizando o trabalho dos cientistas, por outro, mostra também um pouco de inocência de como todo o processo funciona. A verdade é que a torcida não vai alterar se funciona ou não e quanto funciona. É preciso ter calma para ver a ciência acontecer", pondera Alicia.
Débora faz ressalvas contra a pressa e imediatismo gerado em torno da ciência. "Temos inúmeros exemplos de remédios que foram bem-sucedidos em testes em tubo de ensaio e em ratinhos, mas no corpo humano é diferente. Recentemente tivemos medicamentos para Parkinson e Alzheimer que começaram a ser vendidos e as pessoas tiveram efeitos colaterais graves, algumas indo à óbito", recorda.
Bethânia Nunes, Bianca Queiroz - Metrópoles