O brasileiro passa, em média, 116 horas por semana conectado — o equivalente a quase cinco dias sem interrupção. Mantido esse ritmo, uma pessoa vive mais de 52 anos, 9 meses e 16 dias diante de telas. O dado é de um levantamento da empresa de segurança digital NordVPN, que registrou aumento de 1 ano, 6 meses e 3 dias em relação ao estudo de 2022.
O Brasil está entre os países que mais tempo passam online. O relatório Digital 2026, da plataforma DataReportal, mostra que esse tempo se concentra em smartphones, redes sociais e plataformas de vídeo. Semanalmente, o brasileiro dedica 12 horas e 19 minutos às redes sociais, 11 horas e 28 minutos a filmes e séries em streaming e 10 horas e 49 minutos a vídeos online.
O fenômeno atinge todas as faixas etárias, mas os adolescentes apresentam sinais mais evidentes de sobrecarga.
Metade dos adolescentes diz passar mais tempo online do que gostaria
Pesquisa do Instituto Alana, intitulada "Adolescência sem Filtro", ouviu 505 adolescentes de 13 a 17 anos em todo o país. Metade deles afirmou passar mais tempo na internet do que gostaria. Outros 41% disseram se sentir mais dependentes do celular, e 39% relataram que o uso da internet tem tomado tempo dos estudos.
O levantamento aponta que quase 80% dos jovens ficam online mais de três horas por dia. Desses, 22% permanecem de cinco a seis horas, e 15% ultrapassam oito horas diárias. Sobre o estado emocional, 27% dizem se sentir cansados durante o uso, 23% relatam raiva e 22%, ansiedade. Ao mesmo tempo, 71% afirmam sentir prazer com frequência no ambiente digital, e 63% dizem se sentir felizes.
Esses números dialogam com um estudo australiano de dez anos conduzido pelo Instituto de Pesquisa Infantil Murdoch, em Melbourne, e publicado no British Medical Journal. A pesquisa acompanhou 1.195 estudantes e concluiu que o uso de redes sociais por mais de duas horas diárias eleva em 29% o risco de sintomas depressivos. Na faixa de 12 a 13 anos, o risco é ainda maior: 72% entre as meninas e mais que o dobro entre os meninos.
Entre os adultos, o tempo de tela também é elevado. O Brasil ocupa a segunda posição no ranking mundial de uso de telas, com cerca de 9 horas diárias — mais da metade do período em que a pessoa está acordada. Um mapeamento de riscos à saúde de crianças e adolescentes feito pela Sociedade Catarinense de Pediatria e pela Associação Catarinense de Medicina aponta que 50% das crianças do estado passam de três a quatro horas por dia em telas, 30% não praticam atividades físicas e 44% estão fora do peso ideal.
Entre os idosos, o acesso à internet cresce de forma acelerada. A consultoria Data8 realizou a pesquisa "Silver Tsunami" com 3.298 pessoas acima de 50 anos em todo o país. O percentual de entrevistados que se conectam diariamente subiu de 70%, em 2021, para 87%, em 2026. O uso de ferramentas de inteligência artificial saltou de 17% para 45% no mesmo período. Já o total de pessoas completamente offline caiu de 16% para 6%.
O aumento do acesso, porém, não significa inclusão digital plena. Pesquisa do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME-USP) aponta que muitos serviços digitais são projetados com base em usuários jovens e ignoram limitações físicas, motoras ou cognitivas de pessoas mais velhas. A responsável pelo estudo, Cynthya Letícia Teles de Oliveira, afirma que "a acessibilidade costuma ser tratada como um curativo no fim do projeto, sem atingir a raiz do problema".
Quando o uso se torna um transtorno
A Organização Mundial da Saúde incluiu o "transtorno por jogos" na 11ª revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11), na categoria de transtornos mentais. Os critérios diagnósticos incluem perda de controle sobre o jogo, prioridade do jogo sobre outros interesses e atividades cotidianas e continuidade ou escalada do comportamento mesmo diante de consequências negativas. Os sintomas precisam persistir por pelo menos 12 meses para que o diagnóstico seja considerado.
No Brasil, o atendimento público de saúde mental é oferecido pelo Sistema Único de Saúde. Segundo a Agência Brasil, a rede de atenção psicossocial do SUS atende por meio das unidades básicas de saúde, que fazem o acolhimento inicial. Casos de média e alta complexidade são encaminhados aos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), e situações de crise aguda podem ser atendidas em unidades de pronto atendimento.
A Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo recomenda, entre as medidas de prevenção: evitar contato com telas para crianças menores de 5 anos; limitar o tempo de tela de crianças e adolescentes e associá-lo à prática de atividades físicas; restringir o uso de telas após as 20 horas; e ajustar brilho e cores das telas para tons mais suaves.
Canais de ajuda: O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece atendimento psicológico gratuito por meio das unidades básicas de saúde (UBS) e dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). O Centro de Valorização da Vida (CVV) presta apoio emocional gratuito e sigiloso por telefone, 24 horas por dia, pelo número 188.
Natália Figueiredo - Portal SGC