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O documentário "Luz de Uma Nova Vida", produção audiovisual realizada em Ouro Preto do Oeste, foi lançado na última quarta-feira (27) em uma sessão aberta ao público no auditório da ACIOP.
Com 128 minutos de duração, a obra retrata vivências, rituais e relatos de pessoas que tiveram suas trajetórias marcadas pela ayahuasca, bebida tradicional da Floresta Amazônica. As filmagens ocorreram no Centro Espiritualista Nosso Cantinho, em Ouro Preto do Oeste, e no Núcleo Mulateiro, em Candeias do Jamari.
O diretor do filme é Keven Fongaro Fonseca, mestre em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal Fluminense. A produção é assinada por Isabela Priscila Vieira Rodrigues, com edição de som de Wesley Silva Lacerda, design gráfico da Eleve Design Criativo, social media da Agência K. e distribuição de Lane Lopes.
O diferencial do documentário, segundo o diretor, está no método de produção. Keven Fongaro afirma que realizou as filmagens e a edição sob efeito da ayahuasca, assim como a maior parte dos entrevistados.
"Acho que um dos grandes diferenciais de ‘Luz de uma Nova Vida’ como um documentário sobre a ayahuasca é que ele foi feito de dentro para fora. Foi feito por um cineasta nascido aqui na Floresta Amazônica, nascido em Ouro Preto do Oeste no interior de Rondônia, que é também um oasqueiro", diz o diretor.
Ayahuasca em Rondônia: tradição e pesquisa
A ayahuasca, conhecida popularmente como Santo Daime ou simplesmente "chá", é produzida a partir do cozimento de folhas do arbusto Psychotria viridis (chacrona) e da casca do cipó Banisteriopsis caapi (mariri) . No Brasil, seu uso é considerado legal desde 1987 para fins ritualísticos .
Rondônia tem papel central na história da ayahuasca no país. Foi no estado que surgiu uma das três vertentes religiosas originais que utilizam a bebida: a Barquinha, fundada em Ji-Paraná . Além dela, o Santo Daime e a União do Vegetal completam as chamadas "religiões da floresta", surgidas nas primeiras décadas do século 20 entre seringueiros da Amazônia .
Em Porto Velho, a capital do estado, a ONG Acuda (Associação Cultural e de Desenvolvimento do Apenado e Egresso) chegou a oferecer a ayahuasca a detentos do regime fechado como parte de um projeto de ressocialização. A experiência radical foi tema de reportagem do Fantástico em 2015 e também repercutiu no jornal norte-americano The New York Times .
Pesquisas científicas sobre a ayahuasca têm avançado nos últimos anos. Estudos conduzidos pela Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto (USP-RP) e pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) avaliam a potencial ação antidepressiva da bebida . Em um ensaio clínico controlado com placebo, publicado em 2018 na revista Psychological Medicine, cerca de 60% dos participantes com depressão refratária que receberam uma dose única de ayahuasca apresentaram redução superior a 50% nos sintomas após sete dias .
Conservação ambiental e território religioso
Outro aspecto relevante é a relação entre as comunidades ayahuasqueiras e a preservação florestal. Pesquisas acadêmicas realizadas em Rondônia indicam que as propriedades rurais pertencentes a centros que utilizam a ayahuasca mantêm altos índices de cobertura vegetal.
Uma tese de doutorado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) mapeou 24 propriedades rurais ligadas a organizações ayahuasqueiras no estado. O estudo constatou que 96,6% do território analisado permanece com cobertura arbórea, percentual superior ao exigido por lei para Reserva Legal . Essas propriedades funcionam como "ilhas de floresta" em meio a áreas desmatadas para pastagem .
Expectativas para o filme
O cineasta afirma que o próximo passo é apresentar o documentário à população de Ouro Preto do Oeste, já que parte do orçamento teve investimento da Prefeitura. Depois, a produção deve circular por festivais, mostras e eventos de cinema pelo Brasil.
"Uma das coisas que a gente espera fazer com esse filme é quebrar um pouco do preconceito que existe em cima da ayahuasca. Apesar de ser uma cultura milenar aqui da região amazônica, e de ser uma cultura que tem se expandido e se difundido cada vez mais, ainda existe muita gente que enxerga como uma coisa negativa, com olhar preconceituoso mesmo", diz Keven Fongaro.
"O que a gente espera com esse filme é desmistificar, mostrar que não é nada demais, é algo palpável, é algo que pode fazer bem, é algo que pode curar uma pessoa, é algo que pode mudar a vida de alguém para melhor."
Natália Figueiredo - Portal SGC