Reprodução/Instagram
Imagine o problema: um casal chega ao seu apartamento sem avisar, instala uma cama e anuncia que ali pretende crescer a família. E piora: ao chamar a "polícia", você ouve que não há nada a fazer senão esperar até os dois (e os filhos) irem embora.
É o que aconteceu nos apartamentos de duas sulistas nas últimas semanas. A gaúcha Fernanda Farias e a paranaense Micaela La Falce, cada uma em um canto do sul do país, viraram colegas de quarto de aves silvestres por tempo indeterminado.
Enquanto Fernanda compartilha as imagens emocionantes de um casal de carcarás que puseram ovos do lado de fora de sua janela, Micaela narrou a história de como "perdeu" toda a sua varanda para um urubu que transformou sua churrasqueira em ninho.
A urubu Úrsula e o 'usucapião' em Cascavel (PR)
No final de agosto, a ceramista Micaela La Falce contou em seu TikTok sobre um animal que havia botado um ovo em sua varanda enquanto ela viajava. A paranaense levou um susto quando voltou para casa e viu um urubu dentro da churrasqueira.
Quando percebeu que o animal não sairia por conta própria, ela acionou o Corpo de Bombeiros, que transferiu o caso para a Secretaria do Desenvolvimento Sustentável do Paraná.
Agentes de proteção ambiental visitaram o apartamento e viram que, como um ovo foi botado na churrasqueira, o local agora era um ninho de animal silvestre. Portanto, nem o ovo nem a mãe poderiam ser perturbados ou removidos.
Micaela também descobriu que estes casos são comuns no segundo semestre, período reprodutivo de aves como o urubu. Para os animais que vivem próximos a centros urbanos, a oferta de espaços naturais seguros para construir ninhos é cada vez menor.
Agora, cenas do cotidiano de Micaela com o urubu (que recebeu o nome de Úrsula) estão trazendo novos seguidores ao perfil da ceramista. Ela não pode ter contato direto com o animal, mas tem visão privilegiada para suas interações com o macho, que a visita com frequência.
"Usucapião concluído com sucesso", brincou a criadora de conteúdo em um story no Instagram, em referência ao princípio legal que dá a propriedade de um imóvel a quem nele reside durante longos períodos.
O casal de carcarás carinhosos em Pelotas (RS)
O caso dos visitantes no apartamento de Fernanda Silva Farias é diferente. A própria conta ter montado com gravetos do lado de fora de uma janela para incentivar a aproximação de pássaros.
Quem respondeu ao chamado foi uma fêmea de carcará-de-crista, uma ave de rapina da família dos falcões. Primeiro, ela botou um ovo e adicionou mais objetos ao ninho, entre penas e folhas. Depois, veio o segundo ovo, e começaram as visitas do "marido".
"Eles se revezam em cuidar dos ovos", escreveu a gaúcha em uma publicação no Instagram. A posição do ninho ao lado da janela permite gravações muito próximas, capturando cada detalhe do corpo, das expressões e do comportamento dos pássaros.
Fernanda chegou a flagrar a fêmea parecendo conversar com seus ovos enquanto arrumava o ninho, piando sozinha durante todo o processo.
Nesta terça-feira (29), ela publicou uma atualização: pelo menos um filhote nasceu com vida e já está sendo alimentado pela mãe.
O que diz a legislação ambiental
O artigo 29 da Lei de Crimes Ambientais (nº. 9.605) proíbe, sob pena de multa ou detenção de até um ano, "modificar, danificar ou destruir ninho, abrigo ou criadouro natural".
Também está sujeito às mesmas sanções quem "impedir a procriação da fauna, sem licença, autorização ou em desacordo com a obtida". A pena é maior caso a espécie ferida seja rara na região ou esteja ameaçada de extinção.
No caso de construção de ninho e ocupação de um espaço privado, é possível acionar órgãos ambientais municipais para receber orientações específicas à espécie. Quando os animais adultos e filhotes deixarem o local, considere fazer as alterações necessárias às janelas e sacadas para evitar novas "invasões".
CNN Brasil