Fernando Martinho
Violência no meio rural não é fenômeno novo no Brasil, mas os dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) para 2025 revelam um contraste preocupante: embora o total de ocorrências tenha caído quase 30%, o número de mortes dobrou, passando de 13 para 26. Isso indica conflitos menos frequentes, porém mais letais, concentrados sobretudo na Região Norte, que responde por 61% dos óbitos.
Rondônia e Pará lideram em número de assassinatos, com sete casos cada. Em Rondônia, destaca-se o massacre de Vilhena, em junho, quando três pessoas foram mortas em um único episódio — um dos dois casos classificados como massacre no país. Apesar da liderança em mortes, Rondônia ocupa o terceiro lugar em número total de conflitos, atrás de Maranhão e Pará, o que evidencia maior intensidade da violência proporcionalmente.
Os conflitos por terra seguem como principal causa, representando cerca de 75% dos casos, seguidos por disputas trabalhistas, por água e por áreas produtivas. Grandes proprietários rurais são apontados como responsáveis diretos ou indiretos pela maioria das mortes, enquanto comunidades tradicionais e trabalhadores aparecem como principais vítimas.
A CPT também destaca a omissão do poder público, citando falhas na política fundiária, lentidão judicial e falta de fiscalização como fatores que favorecem a impunidade.
Há divergências sobre as causas dos conflitos. Representantes do agronegócio atribuem parte dos problemas a ocupações irregulares e defendem a importância econômica do setor. Já organizações de direitos humanos afirmam que muitas disputas envolvem territórios historicamente ocupados ou protegidos, e que a violência é usada para expulsar populações.
Além das mortes, cresceram outras violações, como prisões arbitrárias, humilhações e cárcere privado. O trabalho análogo à escravidão também aumentou, com alta de ocorrências e quase 2 mil pessoas resgatadas.
Na Região Norte, o relatório aponta a atuação articulada de grilagem, exploração ilegal e grupos armados, favorecida pela fragilidade institucional. Especialistas indicam um modelo econômico baseado no lucro rápido, que intensifica disputas por terra.
Reduzir a violência exige ações amplas: garantir segurança jurídica, assegurar direitos de comunidades, fortalecer fiscalização e promover desenvolvimento sustentável. Sem isso, a tendência é de agravamento.
O relatório da CPT funciona como alerta sobre a gravidade da questão fundiária no Brasil, cuja solução depende de diálogo, políticas eficazes e respeito aos direitos de todos. Ignorar esses dados é aceitar a continuidade da violência no campo.
Diário da Amazônia