Foto: Reprodução/RedeTV!RO/SGC
A imagem do médico-veterinário em um consultório, examinando cães e gatos, é a mais comum. Mas a realidade da profissão é imensamente maior. Nesta quarta-feira, 9 de setembro, Dia do Médico Veterinário , a data serve para lembrar que esses profissionais atuam em áreas que vão muito além do atendimento clínico — e que seu trabalho impacta diretamente a vida de toda a população.
A escolha da data remete a 9 de setembro de 1933, quando o então presidente Getúlio Vargas assinou o Decreto nº 23.133, que regulamentou a Medicina Veterinária no Brasil pela primeira vez .
A Medicina Veterinária possui mais de 80 áreas de atuação reconhecidas . Muitas delas sequer envolvem o cuidado direto com animais de estimação.
O médico-veterinário está presente na pesquisa científica, no desenvolvimento de medicamentos e vacinas, em laboratórios, no marketing e na comunicação dos mercados pet e agro . Atua também no controle de zoonoses, na vigilância sanitária e na saúde pública.
O profissional trabalha na pecuária de leite e de corte, na avicultura, na suinocultura, na ovinocultura e na caprinocultura. Está na reprodução e genética animal, no bem-estar animal e no acompanhamento de animais de trabalho e de esporte .
Uma das atuações mais importantes e menos conhecidas do médico-veterinário está na inspeção de produtos de origem animal . É ele quem fiscaliza a carne, o leite, os ovos e o pescado que chegam à mesa do consumidor.
O Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) alerta que, sem essa fiscalização, a população fica exposta a riscos graves: contaminação microbiológica por bactérias como Salmonella e Escherichia coli, presença de resíduos químicos e farmacológicos, e transmissão de doenças zoonóticas como tuberculose, brucelose e cisticercose .
A ausência do médico-veterinário na inspeção também favorece o abate clandestino e a comercialização de produtos impróprios para consumo . A especialista Dúnia Campos explica que o profissional "é peça-chave na promoção da saúde pública, sendo a espinha dorsal da segurança alimentar" .
Recentemente, o Conselho Regional de Medicina Veterinária de Mato Grosso (CRMV-MT) se manifestou contra um projeto de lei que permitiria a substituição do médico-veterinário por engenheiros de alimentos na execução de inspeções. O presidente do conselho, Aruaque Lotufo, alertou que a medida "pode comprometer a rastreabilidade e o controle de doenças de transmissão alimentar, com impacto direto na saúde pública" .
A atuação do médico-veterinário na vigilância sanitária é essencial para a prevenção de zoonoses — doenças transmitidas de animais para humanos, como raiva, leptospirose, brucelose e febre amarela . Desde 2011, a categoria foi integrada ao Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF), atuando em equipes multiprofissionais da atenção básica .
Toda essa atuação está alinhada ao conceito de Saúde Única, que reconhece a conexão indissociável entre a saúde animal, a humana e a ambiental . A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a Saúde Única como uma abordagem integrada para alcançar melhores resultados em saúde pública . Em 2024, foi sancionada a Lei 14.792, que instituiu o Dia Nacional da Saúde Única, celebrado em 3 de novembro .
A evolução da Medicina Veterinária trouxe um grau crescente de complexidade e especialização . Hoje, há profissionais dedicados exclusivamente à Endocrinologia, Nutrição, Cardiologia, Dermatologia, Neurologia, Nefrologia, Gastroenterologia, Oncologia, Oftalmologia, Ortopedia, Reprodução, Anestesiologia e diagnóstico por Imagem .
Essa especialização exige anos de estudo. A graduação dura, em média, cinco anos, geralmente acompanhada de estágios, residências, pós-graduações, especializações e participação em congressos. A necessidade de atualização é permanente.
Setembro é o mês da campanha de prevenção ao suicídio, e a coincidência com o Dia do Médico Veterinário não é fortuita. Estudos mostram que a categoria enfrenta um risco maior de suicídio em comparação com a população geral .
Segundo dados do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), a taxa de suicídio entre médicos-veterinários é 3,5 vezes mais alta do que a média da população. Homens da área têm o dobro de risco, enquanto mulheres apresentam 3,5 vezes mais chances .
Pesquisas realizadas no Brasil em 2023 revelaram que 93% dos médicos-veterinários consideram o estresse um dos maiores desafios da profissão . Outro dado alarmante: 74% afirmaram que a realização de eutanásias é um dos momentos mais difíceis da prática clínica .
Os fatores de estresse incluem longas jornadas de trabalho, baixa remuneração, pressão financeira, fadiga por compaixão, dificuldade de equilibrar a vida pessoal e profissional, e a cobrança constante de tutores que tratam os animais como membros da família .
A médica-veterinária e psicóloga Ingrid Bueno Atayde Machado, presidente da Comissão de Atenção à Saúde Mental dos Médicos-Veterinários do Conselho Federal de Medicina Veterinária, explica que "os clínicos de pequenos animais lidam com expectativas cada vez maiores dos clientes, além das longas horas de trabalho e estudo. Já os clínicos de grandes animais enfrentam deslocamentos longos, momentos propícios a pensamentos intrusivos, além de riscos nas estradas" .
A psicóloga Bianca Gresele, coordenadora do projeto de Saúde Mental na Medicina Veterinária do CRMV-MG, destaca que "muitos veterinários expressam que se sentem desrespeitados e desvalorizados, especialmente quando são alvo de críticas. Essa falta de reconhecimento afeta diretamente sua motivação e saúde mental" .
O médico-veterinário está presente em momentos que a população nem imagina. Quando você compra leite, queijo, carne, ovos ou pescado com segurança sanitária, há uma cadeia de profissionais envolvidos, e o médico-veterinário desempenha papel fundamental .
Quando uma epidemia de zoonoses é controlada, quando um surto de contaminação alimentar é evitado, quando um alimento impróprio é retirado do mercado — em todas essas situações, há um médico-veterinário atuando, muitas vezes nos bastidores, para proteger a saúde da população.
E, por trás desse trabalho essencial, há profissionais que enfrentam jornadas exaustivas, pressão emocional constante e uma realidade de saúde mental que exige atenção e acolhimento.
A mensagem para quem sonha em seguir a carreira é de persistência e consciência. A Medicina Veterinária é linda, mas também é dura. É estudar durante anos para assumir a responsabilidade de tomar decisões que envolvem vidas. É conviver com urgências, sofrimento e morte. É participar de decisões de fim de vida e aprender a conviver com aquilo que, apesar de todo esforço, não estava sob controle.
O trabalho do médico-veterinário merece reconhecimento. Não só no dia 9 de setembro. Mas todos os dias.
Natália Figueiredo - Portal SGC